quarta-feira, 21 de junho de 2017

Ao Cair da Noite

(It Comes at Night, EUA, 2017) Direção: Trey Edward Shults. Com Joel Edgerton, Christopher Abbot, Carmen Ejogo, Kelvin, Harrison Jr.


Por João Paulo Barreto

Exemplo de uso sagaz da construção narrativa de modo enxuto e econômico, Ao Cair da Noite é daqueles filmes que conseguem dominar a atenção do público com muito pouco. Porém, esse pouco, longe de ser um adjetivo a diminuir a obra, define bem a eficiência do diretor e roteirista Trey Edward Shults na criação de sua história e dos elementos que a circundam na intenção de causar desconforto e tensão ao espectador sem a necessidade de manipulá-lo de modo barato com sustos fáceis ou personagens inúteis. Tudo aqui tem sua medida exata.

Desde as cenas iniciais, quando vemos pessoas usando máscaras de gás e luvas a se despedir de um debilitado, moribundo e gravemente ferido idoso, já começamos a montar as peças para o entendimento daquela realidade. Sem necessidade de narração over, flashbacks ou diálogos expositivos, percebemos a atual situação daqueles personagens e o quão urgente é a necessidade deles se protegerem do mundo ao seu redor.

As pistas são colocadas à mesa e a narrativa é tão bem construída em sua economia, que rapidamente dominamos aquele entendimento. Percebemos que um vírus fatal e altamente contagioso matou boa parte da população da terra, tornando as pessoas reclusas, fazendo-as voltar a caçar para sobreviver e lutando contra predadores humanos. Porém, diferente de outros exemplares que abordam a realidade pós apocalíptica, Ao Cair da Noite prefere focar não no resultado de um planeta devastado e em como este se encontra no seu estado de caos, mas, sim, no enquadramento e no desenvolvimento psicológico de seus três isolados personagens centrais, um pai, sua esposa e filho adolescente, e em como a paranóia pode dominar seus atos.

Paul estuda Will para saber se este merece sua confiança
A unicidade de Paul, Sarah e Travis é quebrada com o surgimento de um invasor em busca de comida. Will é rendido, amarrado e suas respostas convencem Paul a ajudá-lo a buscar sua esposa e filho pequeno, supostamente isolados milhas de distância dali. Em mais outra prova do foco certeiro de seu roteirista, as repostas para quem é aquele homem que surge dentro do ciclo familiar de Paul nunca são propriamente respondidas, deixando a dúvida para espectador administrar, como quando ele hesita em dar uma resposta rápida durante um momento de pânico ou quando se confunde nas informações passadas anteriormente acerca de sua família.

Neste jogo psicológico, percebemos haver algo de errado dentro daquele suposto equilíbrio, no qual a desconfiança e a paranóia começa a surgir como elemento desestabilizador. Porém, a derrocada daquela pretensa paz acontece não por razões relacionadas à perda dessa confiabilidade ou qualquer intenção clichê de inserir uma guerra psicológica entre seus protagonistas, mas, sim, por puro desespero a tomar lugar do pragmatismo pregado pelo personagem de Paul, vivido de modo calculado por Joel Edgerton. Desespero que logo volta a ser suplantado pela frieza pensada dois passos à frente, mas que não o impedirá de, também, sofrer a mesma dor que se vê obrigado a infligir naqueles que ameaçam sua família.

As regras de convivência são definidas
Utilizando o espaço confinado de modo a desenhar a sensação de segurança dos seus personagens, Shults parece brincar com as possibilidades que aquele confinamento insere na construção e na proximidade daquelas pessoas estranhas. Observe, por exemplo, a escolha do diretor em tornar as paredes inúteis no que tange à privacidade, uma vez que qualquer sussurro naquela casa pode ser escutado por todos. Em um mundo onde a união ainda pode ser um modo de sobrevivência, a desconfiança nunca deixará de ser um “porém” para aquelas pessoas estranhas entre si. E naquele novo universo, qualquer ideia de sobreviver vem atrelada a essa união. Para ela existir, no entanto, não pode haver segredos. E que modo melhor de ilustrar isso do através de uma casa onde não existe privacidade? 

Com longos enquadramentos em personagens centrais, exibindo suas nuances e tensas faces em meio à reflexão, o longa desenha seu desfecho trágico para o espectador de modo gradativo. Até seu momento final, Ao Cair da Noite mantém-se fiel à sua proposta pragmática de analisar o sofrimento humano. É com regozijo que vemos os créditos subirem e percebemos que a dor da perda e a aceitação, aqui, suplantam qualquer necessidade de apelo superficial dramático.



terça-feira, 6 de junho de 2017

Neve Negra

(Nieve Negra, ARG, 2017) Direção: Martin Hodara. Com Ricardo Darin, Leonardo Sbaraglia, Laia Costa.


Por João Paulo Barreto

Algumas feridas não se cicatrizam jamais, diz a frase clichê. Essa definição é bem apropriada para a vida de Salvador, o atormentado ermitão que vive isolado na propriedade de sua família localizada na patagônia argentina. Remoendo um passado traumático, o homem sobrevive da caça e mantém-se aquecido do modo como pode, mesmo que há muito suas magoas não possam mais deixar qualquer calor penetrá-las. Tais sentimentos estão prestes a inflamar por conta da visita de sue irmão, Marcos, que, junto com sua jovem esposa grávida, vai até Salvador levando as cinzas do pai de ambos. A intenção é depositá-las no mesmo local onde o irmão caçula deles foi enterrado quando criança. Tal intento, no entanto, despertará mais dor e ódio do que qualquer possibilidade de uma recepção calorosa por parte do ermitão.

Neve Negra cria em seu ambiente inóspito de frio congelante e ventos afiados a metáfora perfeita para o que rege a natureza familiar daqueles dois homens. Criados sob a régia tirânica e sádica de um pai violento, os dois rapazes, o garoto caçula e a irmã adolescente são apresentados ao público em eficientes flashbacks, inseridos em cena de um modo surpreendente ao utilizar o som diegético de cada ambiente, seja ele o ranger de uma escada, o barulho de uma surra de cinto sendo aplicada ou simplesmente os passos na neve. O modo orgânico como as revelações são feitas a partir do retorno de cada membro daquele ciclo a um passado doloroso, repleto de culpa e arrependimento, leva o espectador a compartilhar com aquela família desintegrada toda aquela mágoa.

Marco e sua irmã encaram as feridas da memória
Aqui, o interesse em lucrar com as terras em uma possível venda que deixaria todos milionários não passa nem perto das intenções de Salvador. Para ele, o segredo escondido naquele inóspito ambiente e sua própria permanência no lugar soam como uma penitência, algo pelo qual ele precisa pagar por se considerar responsável pela morte do irmão caçula, baleado durante uma caçada na floresta.

Para seu personagem, o sempre eficiente Ricardo Darin consegue trazer uma densidade assombrosa, algo que, através de uma postura curvada e de olhar cansado, mas sempre atento, coloca a construção de Salvador como a de uma besta fera, quase que uma criatura animalesca, alguém que pode até se expressar através de poucas palavras, mas cujo silêncio, mesclado a um constante senso de observação e necessidade de viver isolado são mantidos justamente como um modo de proteção de uma fúria que precisa ser sufocada.

Salvador: mágoas, arrependimento e ódio escondidos no isolamento
Não demora, claro, para tal fúria explodir e as razões para isso acontecer nos chega de modo a provar que o passado de um homem sempre volta para assombrá-lo. A Salvador e Marcos não resta muita coisa a não ser o lamento de uma vida que se preferiu levar tentando fugir dos próprios erros, da própria inércia e de uma passividade supreendente. Para o homem a viver solitário com seus próprios fantasmas e arrependimentos a assombrar-lhe, ao menos, alguma recompensa lhe é concedida no final. Mesmo que não pareça assim ao espectador, friso. Já para Marcos, mesmo com um filho a caminho e possibilidade de fortuna a acompanhar-lhe, o que resta, surpreendentemente é bem menos do que ficou para o irmão mais velho.

Com a licença da repetição, o passado sempre volta a assombrar o homem. No caso de Marcos, este não tardará.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Mulher Maravilha

(Wonder Woman, EUA, 2017) Direção: Patty Jenkins. Com Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright, Connie Nielsen, Ewen Bremner.



Por João Paulo Barreto

Lembro-me que, mesmo ainda criança, sem um pensamento crítico formado e facilmente suscetível às manipulações emocionais dos filmes, uma frase proferida por Christopher Reeve na sua encarnação definitiva de Kal-El, em Superman II, de 1980, me marcou bastante quando o assisti em meados da mesma década. Nesta cena específica, após constatar a destruição sádica e assassinatos cometidos pelo general Zod, vivido por Terence Stamp, o herói diz, em um sentimento de dor, “pare, não faça isso com as pessoas.” Isso definia bem o espírito da criação de Jerry Siegel e Joe Shuster, que no saudoso Reeve encontrara sua face eterna.

Sentimento semelhante voltou a acontecer, mas, claro, em uma situação que tendia inicialmente para uma análise crítica mais fria, que buscava se prender mais a um distanciamento analítico e menos a uma influência emocional. Mas, confesso, foi inevitável experimentar algo que remetia àquela mágica sensação que o longa de Richard Donner me causou há quase trinta anos.

A heroína durante a invasão à terra de ninguém
“Eu escolho acreditar no amor.” Essa é a frase proferida pela heroína no clímax do filme. Por mais que venha a soar como uma novela do horário das sete e com dublagem, essa linha de diálogo, dita no momento em que o filme nos apresenta, é o que define a criação da protagonista e sua trajetória até aquele momento. Ao subir dos créditos, Mulher Maravilha deixa-nos com a sensação de ser um filme não de ação descerebrado, calcado apenas em sequências explosivas (ainda bem que Snyder não dirigiu), mas, sim, uma obra sensível em uma mensagem antibélica, e que, finalmente, traz uma super heroína como papel principal.

E que papel! Desde seu desenvolvimento inicial, o roteiro de Allan Heinberg demonstra um cuidado criterioso na apresentação da personagem e no ambiente em que a mesma surge. Um dos pontos de acerto está no modo dinâmico e econômico como toda a introdução na paradisíaca Themyscira consegue dar conta de exibir a trajetória de Diana, desde sua infância (acerto incrível na escolha da atriz mirim, inclusive) e adolescência, até seu ponto de ruptura, quando precisa deixar o local para conter a ira do deus da guerra, Ares. Sobre a ilha, impressiona o desenho de produção, bem como a direção de arte, conseguindo recriar uma ambientação das lendas gregas de modo a inserir o espectador na trama e na existência do local até aquele ponto, com uma bela utilização de frames animados para nos contar aquela história.

Rainha Hippolyta e sua presença de autoridade
Sem contar a própria caracterização das personagens femininas do lugar, com destaque para Robin Wright e Connie Nielsen, que conseguem colocar a postura centrada de suas decisões pragmáticas e militares de modo a conter seu emocional. E está na presença de Nielsen um dos mais belos momentos, quando se despede da filha que parte para a guerra. Nada mais humano e doloroso quando milhares morrem lutando em terras estrangeiras muitas vezes em nome de tiranos, e tudo o que deixam para trás com suas mães é saudade. Ver isso numa deusa soma ainda mais para o filme.

Ainda em Themyscira, as sequências de treinamento, bem como o embate entre soldados armados e arqueiras em cavalos são um aperitivo para o que veremos na principal batalha de guerra, quando Diana encara a terra de ninguém entre as trincheiras aliadas e as linhas inimigas na Primeira Guerra Mundial, ou quando utiliza o laço dourado como um elemento visualmente incrível nas cenas de luta. Indefectível ao unir os efeitos sonoros com as cenas explosivas de ação, juntamente com uma trilha deveras eficiente (sendo esse desequilíbrio de elementos técnicos um dos problemas mais gritantes em Batman Vs. Superman), o filme de Patty Jenkins consegue imprimir marcas reconhecíveis em suas opções de enquadramentos, como quando vemos o mesmo artifício de exibir a imagem lateralmente invertida na fuga de dos personagens pilotando um avião ou quando vemos Diana cavalgar adentrando em uma floresta.

Steve Trevor resgatado da morte por uma deusa
Caprichando no humor ao discutir as questões femininas em relação ao personagem de Chris Pine, bem como na química entre o elenco secundário encabeçado por um sempre bem vindo e hilário Ewen Bremner (o eterno Spud, de Trainspotting), Mulher Maravilha consegue, ainda, a proeza de desenvolver um vilão cujas motivações possuem uma profundidade incomum em filmes baseados em histórias em quadrinhos. 

Com sua argumentação relacionada ao fato de que, apesar de ser o deus da guerra, Ares se exime da culpa pela natureza bélica do mundo de uma forma tão pertinente que fica difícil discordar de suas ideias. Ao fazê-lo, ele culpa justamente o ser humano, provando o embasamento calcado no real e proposto pelo roteiro, algo que, convenhamos, desde a versão do Coringa de Heath Ledger não se via em um vilão.

Com um final que coloca uma discreta sugestão que insere a heroína na luta contra o terrorismo (no caso, em Paris), Mulher Maravilha mostra que é possível, sim, uma super heroína como protagonista. Após tantas versões do Batman ou do Super, já estava na hora do cinema dar uma chance a um ícone feminino dos quadrinhos clássicos.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

Inseparáveis

(Inseparables, Argentina, 2016) Direção: Marcos Carnevale. Com Oscar Martínez, Rodrigo de La Serna, Alejandra Flechner.


Por João Paulo Barreto

Difícil falar sobre Inseparáveis, novo filme argentino estrelado por Oscar Martinez e Rodrigo de La Serna sem suscitar o original francês no qual foi baseado o longa oriundo do país hermano. Intocáveis, tocante trabalho lançado em 2011, conseguiu unir, em uma história aparentemente simples, elementos de drama e comédia em um equilíbrio notável, sem que a premissa descambasse para o riso rasgado e vazio baseado em momentos descartáveis de comédia rasa, ou para o melodrama barato e manipulador, através do uso frágil de uma trilha sonora inserida com claro impacto artificial.

Além de todos estes elementos de acerto, trata-se de uma obra que conseguiu uma química singular entre seus protagonistas e que deve boa parte de seu funcionamento ao carisma de Omar Sy. No sorriso rasgado do ator, seu personagem, Driss, escondia diversas nuances e camadas, tanto de alegria quanto de sofrimento, algo que o colocava em uma mescla constante de afeto e curiosidade por parte do espectador, que enxergava no jovem excluído socialmente uma pessoa de bom coração, mas que erros passados acabaram por colocá-lo naquela espiral descendente. E é na amizade com Phillippe, personagem construído cuidadosamente por François Cluzet, que o rapaz percebe uma segunda chance de manter seu bom caráter em evidência, mesmo que o mesmo tenha sido testado de modo negativo anteriormente.

Tito (Rodrigo de La Serna) em seu momento de dança
Então, cinco anos depois, surge a cópia carbono argentina batizada de Inseparáveis. Reduzindo para um modo simplista a forma como os dois protagonistas se encontram, aqui, o emprego oferecido ao Tito (vivido por um esforçado Rodrigo De la Serna) de forma um tanto ao acaso, já tira boa parte da boa construção do personagem de Driss no original francês, quando o mesmo estava no local das entrevistas em busca apenas de uma assinatura no documento que o permitiria renovar seu seguro desemprego. E esse momento de fúria que desenha a cena já denota bem o modo como a história do original será reduzida a um meio um tanto preguiçoso, mais calcado em uma atuação histriônica de Serna do que através de um cuidado no equilíbrio dramático e cômico visto em Sy.

Já Oscar Martínez não pode fazer muito pelo seu Felipe, o milionário tetraplégico, a não ser emular a atuação de Cluzet, sendo que, aqui, ele ainda é prejudicado por uma maquiagem ineficiente que não se justifica (a barba falsa no final gera estranheza) e pela ausência da mesma química observada entre os atores franceses.

Martinez e de La Serna - Esforço no emular da mesma química do original
Na já citada utilização da trilha sonora de modo forçado e buscando manipular a emoção do espectador, o filme acaba reduzindo seu impacto, percebendo-se ineficaz naquilo que o seu original foi tão eficiente: a criação de uma empatia instantânea entre seus personagens e o público. Apesar de pouca coisa ou quase nada funcionar neste remake, é preciso reconhecer que a opção de simplificar as causas do acidente de Felipe para a equitação ao invés do parapente conseguiu gerar um impacto emocional mais eficiente que o do original.

Vamos esperar agora pela versão estadunidense com Bryan Cranston e Kevin Hart em mais uma refilmagem que parece provar a total ausência de novas ideias no cinema.


sábado, 27 de maio de 2017

Más Notícias para o Sr. Mars

(Des Nouvelles de la planète Mars, França, 2016) Direção:Dominik Moll. Com François Damiens, Vincent Macaigne, Veerie Baetens.


Por João Paulo Barreto

É do sufocamento oriundo da vida contemporânea que trata o mais recente longa de Dominik Moll. Mas não somente aquele advindo da comum sensação de insegurança por conta da falta de dinheiro, possibilidades sérias de desemprego, dificuldades de se conectar com a mente dos filhos adolescentes ou de questões pessoais relacionadas a um casamento falido. Aqui, os problemas são estes e um pouco mais. São os que surgem da cobrança feita a si mesmo por sucesso e realizações profissionais. São aqueles que torturam o homem quando ele percebe-se envelhecer e não cumprir com as imposições feitas a si mesmo e pela sociedade.

No caso de Phillippe Mars (Damiens), chegar aos 49 anos lhe traz uma diversidade de reflexões. Em seus momentos de fuga mental e sonhos, percebe-se no espaço, vestido de astronauta, leve a flutuar na gravidade zero, algo que denota bem sua vontade de escapar do peso de sua existência. Em sua consciência e pedidos de salvação, estão seus pais já falecidos, que parecem surgir em sua mente nos momentos em que mais precisa de conselhos ou de ajuda física, mesmo. Um exemplo claro da construção de um personagem cujas amarras dependentes dos pais refletem muito de uma geração cuja ligação com seus progenitores se estende durante mais tempo do que em outras épocas.

Mars prestes a ter sua cordialidade testada ao seu limite
É a história de um homem que aos poucos vai perdendo sua natureza conciliadora, sua postura voltada para o diálogo e para uma resolução pragmática de seus conflitos consigo e com os que os cercam. A meta do diretor e roteirista Moll, aqui, parece ser a de testar seu protagonista dentro de um esquema que busca encontrar seu ponto de ruptura. Aquele em que ele finalmente cede, mesmo que de forma justa e racional, e, também, quando se perde em um comportamento que flerta com a mesquinhez e com o perverso. De modo curioso, no entanto, ele ainda consegue demonstrar alguma tendência comportamental louvável, mesmo que estúpida em seu resultado quase fatal.

Essa não adaptação de Phillippe aos problemas oriundos de sua própria rotina chega a nos remeter a obras como Um Dia de Fúria, mas a diferença, aqui, é que qualquer simpatia que viemos a sentir pelo protagonista na sua conturbada trajetória fica para trás  quando o mesmo se deixa levar em uma atitude sádica. Conhecemos seu verdadeiro eu ali, e mesmo que ainda seja possível vê-lo agir de modo conciliatório e apaziguador, qualquer vestígio de carisma e sentimento por sua causa se perdem. Suas fugas mentais daquele dia a dia que parece querer sufocá-lo passam a ser vistas apenas como covardia, e até mesmo sua inércia diante do modo como todos parecem querer se aproveitar de sua boa vontade deixa de ser algo que revolte o espectador a seu favor, parecendo, agora, apenas a inércia de um mesquinho.

Ao observar sua trajetória durante todo aquele período e desfecho, porém, o que se nota é apenas uma descrição de um ser humano em suas limitações, idiossincrasias e imbecilidade. Talvez essa seja uma das poucas formas satisfatórias de se observar a obra de Moll.



quinta-feira, 18 de maio de 2017

Corra!

(Get Out!, EUA, 2017) Direção: Jordan Peele. Com Daniel Kaluuya, Alison Williams, Bradley Whitford, Catherine Keener, LilRel Howery.


Por João Paulo Barreto

É surpreendente observar como scripts inventivos ainda podem surgir em uma indústria tão combalida e carente de boas ideias. Sair de uma sessão como a de Corra!, filme de estreia do diretor e roteirista Jordan Peele, dá ao cinéfilo uma sensação de alívio e felicidade por poder se perceber diante de um trabalho realmente original e recompensador para seu público.

Em Corra!, tal originalidade, entretanto, não se apresenta ao espectador somente no aspecto diversão e risadas (que o filme tem de sobra, friso), mas, também, no aspecto reflexão. É uma prova de que é possível unir os dois tipos de serviços, sem a necessidade de abrir mão da inteligência e sagacidade de sua proposta no intuito de captar apenas a simpatia de um público alvo, em geral adolescente que está no cinema mais pela pipoca e refrigerante do que pela fruição fílmica em si. E isso, infelizmente, é justamente o que vemos todos os anos na leva de produções descerebradas, criadas para uma audiência preguiçosa intelectualmente, que não se percebe estimulada e, por isso, não nota o mais do mesmo que lhe é oferecido.

Catherine Kenner faz sua mágica em Chris (Kaluuya)
Mas, enfim, a proposta desse texto não é a lamentação por conta da ladeira abaixo que o espectador de cinema vem descendo, mas, sim, tentar transferir ao leitor a experiência que foi assistir a Corra! Trata-se de um longa que abrange diversos estilos em sua proposta e em seu resultado final. Além de uma sagaz crítica ao racismo dentro da sociedade norte americana, o filme de Peele funciona como comédia das mais eficientes, uma vez que traz um coadjuvante inspirado e que, como de praxe em diversos filmes, apresenta um ator negro a se destacar na comédia em detrimento de seu protagonista. Porém, diferente de obras como Maquina Mortífera, Mensagem para Você, Um Espião e Meio, dentre tantas, aqui a questão racial, pelo menos nesse sentido, não se aplica tanto. No papel de Rod, LilRel Howery não surge como o personagem negro a servir de ponte para a trajetória do herói. Dono das melhores falas, ficamos, ao final, na dúvida em saber quem é o verdadeiro herói do filme.

Na história de Chris Washington (Kaluuya), um jovem e talentoso fotografo negro que visita os pais da namorada branca, Peele consegue inserir diversos elementos para um estudo da criação da racista e violenta sociedade caucasiana estadunidense, que criou seus pilares dentro de um desenvolvimento financeiro escravocrata e que tenta, até os dias atuais, manter-se dentro desse mesmo estilo de vida que busca suplantar vidas de afrodescendentes, seja de modo sanguinolento, como é constante observar nas ações violentas da policia americana, ou em vias excludentes no âmbito econômico, cultural e educacional. Tudo, claro, em prol do próprio conforto e segurança egoístas.  

Entre predadores: Chris começando a notar algo de estranho ali
E neste caminho, o roteiro do jovem realizador brinca com diversos estilos, sendo o principal, além  de comédia, o de filme de gênero, uma vez que todo o mistério e tensão existentes por trás das excêntricas atitudes da família que abraça de modo tão suspeito e entusiasmado o namorado da filha, consegue criar para Corra! um eficiente clima soturno, gerando no espectador uma constante apreensão até que o seu final, ao mesmo tempo catártico e perfeito em  sua justiça poética, entrega a melhor redenção ao publico.

Em uma obra repleta de surpresas, não vale a pena adentrar em descrições para alcançar limites de caracteres nessa crítica. Diante de tamanha originalidade e fôlego recuperado diante de uma constante produção cinematográfica em estado de looping, Corra! é uma obra que, quanto menos você souber antes de mergulhar naquele universo, melhor.


quinta-feira, 11 de maio de 2017

O Dia do Atentado

(Patriot´s Day, EUA, 2016) Direção: Peter Berg. Com Mark Wahlberg, Michelle Monagha, J.K. Simmons, John Goodman, Kevin Bacon.


Por João Paulo Barreto

Comum surgirem obras que retratam acontecimentos trágicos em solo americano. Normalmente, as dramatizações são produzidas com alguns anos de intervalo, cinco a seis, é o normal. Foi o caso de As Torres Gêmeas, de Oliver Stone, e Voo 93, petardo de Paul Greengrass. O Dia do Atentado, produção bancada por Mark Wahlberg e (vá lá) bem dirigida por Peter Berg foi lançada em 2016 nos Estados Unidos, apenas três anos após o atentado ocorrido em 15 de abril de 2013, quando duas bombas caseiras foram detonadas durante a Maratona de Boston.

É bem verdade que o filme exagera no quesito patriótico (desde o seu título original, obviamente). A mudança no nome nacional denota um dos poucos acertos nesse tipo de decisão quando obras estrangeiras chegam ao Brasil. Porém, há no roteiro escrito pelo próprio Berg, Matt Cook e Joshua Zetumer, quando descontadas as falas de efeito e momentos artificiais para captar a “honra de ser estadunidense”, uma boa construção de personagens, calcada, claro, na presença do produtor/protagonista Wahlberg, que entrega bons momentos quando, no papel de um policial responsável pela segurança da maratona, desabafa acerca dos traumas relacionados ao terrorismo, além de captar uma eficiente cena emocional, quando se desculpa com a esposa por tê-la colocado no local dos ataques.

Tommy (Wahlberg) refaz os passos dos terroristas 
Do mesmo modo, o trabalho de Berg, em conjunto com os sempre competentes Trent Reznor e Atticus Ross na criação de tensão através da trilha sonora, mantém o espectador vidrado nos acontecimentos ali encenados, algo que se torna contagiante a partir do momento em que os ataques são dramatizados pela produção. E aqui reside outro aspecto de acerto da obra: suas sequências de ação. Desde o momento em que a maratona sofre seu revés, até a crucial caça e captura dos dois irmãos responsáveis pelo ataque, a câmera de Berg, acompanhada por uma montagem que não sufoca a ação em cortes rápidos e desnecessários, traz o impacto daqueles acontecimentos de modo genuíno ao espectador, que, independente do clichê “respiro- aliviado-seguido-de-comemoração-dos-personagens” quando a poeira assenta, sente um peso parecido ser retirado de seus ombros.

Seguindo acerto semelhante, o desenho de produção, juntamente com a direção de arte e montagem, cria sequências eficientes mesmo quando não se trata de elementos de ação. Observe, por exemplo, o modo como o personagem de Wahlberg é utilizado para situar os investigadores no local e arredores de onde as explosões aconteceram, colocando a busca pelos dois transeuntes suspeitos de terrorismo através das câmeras de segurança nos comércios dos arredores. Uma cena simples que recria uma prática padrão em investigações, mas que, ao ser encenada dentro do contexto do filme e auxiliada pela montagem que exibe o resultado do senso geográfico do personagem, dá ritmo à narrativa, mesmo que usando de elementos mínimos.

Ao final, fica aquele incômodo ainda relacionado à patriotada excessiva da obra, no entanto, o filme traz uma louvável mensagem edificante de força e consolo às pessoas feridas e aos familiares dos mortos naquele fatídico quinze de abril.


domingo, 7 de maio de 2017

Alien: Covenant

(EUA, 2017) Direção: Ridley Scott. Com Michael Fassbender, Katherine Waterston, Billy Crudup.


Por João Paulo Barreto

Há uma percepção de que Ridley Scott busca, em Alien: Covenant, provar ao espectador que ainda é capaz de causar a mesma sensação claustrofóbica que conseguiu criar em 1979, com a sua incursão original no terror gerado pela criatura desenhada por H.R. Giger. No entanto, apesar de conseguir trazer de volta o horror e o gore, existe uma clara perda da eficiente ambientação de mistério seguida de catarse em detrimento de um espetáculo visual calcado apenas no uso da criatura como elemento artificial de ação descerebrada.

Surpreendendo pelo fato de trazer astronautas treinados entrando em um mundo completamente desprovidos de roupas especiais (ok, sem isso não haveria filme, mas...), o roteiro de John Logan e Dante Harper até consegue criar bons momentos para os fãs do gênero, quando vemos criaturas hibridas da forma de vida alienígena clássica surgirem de dentro do corpo de dois dos tripulantes. Do mesmo modo, ao observarmos o robô David (Fassbender, excelente) chegando ao planeta originalmente habitado pelos engenheiros criadores da vida na Terra (um dos momentos mais aterradores do longa).

David em sua bem adequada postura de criador
David, a propósito, é o melhor personagem do filme. O único com um objetivo concreto, mesmo que insano, e que consegue levá-lo à frente de modo ao mesmo tempo brutal e sutil, como um titeriteiro a brincar com toda a tripulação. Seu embate com quem ele chama de irmão, Walter, vivido também por Fassbender, traz os diálogos mais marcantes da obra. Denota, ao menos aqui, um apuro na criação de Logan e Harper, quando o roteiro de ambos referencia Byron na ascensão e loucura de David em sua relação com o Rei Ozymandias.

Com suas paredes repletas de planos e desenhos aludindo ao traço original de Giger, David é o que se pode chamar de criatura embriagada pela racionalidade e pragmatismo. Curiosamente, trata-se de um ser artificial, mas repleto de malícia e dissimulação, características genuinamente humanas. Desenvolvido por um homem confrontado intelectualmente por ele logo após seu nascimento, David só demonstra emoções quando se refere ao que cria, algo que gera reflexão justamente por conta da inexistência de qualquer piedade em seus atos. Na ficção científica espacial, afinal de contas, são poucas as criaturas cibernéticas que possuem. E na execução do seu plano, passo a passo vamos observando as nuances de seu caráter.

Ação meramente visual que beira ao vazio
Ainda em relação à tentativa de inserção da sufocante atmosfera vista no original de 1979, Scott recria bem o frenético plano dos sobreviventes em prender o ser entre os corredores da nave, utilizando os espaços fechados da Covenant de forma a ilustrar a claustrofobia do espaço. Porém, toda a sequência anterior, com a criatura ainda do lado de fora, perde seu impacto justamente por conta da clara tentativa de impressionar pelo aspecto visual e grandioso dos seus elementos, algo que acaba, ironicamente, tendo o efeito contrário justamente por banalizá-los. E o fato de serem duas criaturas distintas ilustra bem o critério descartável do seu uso.

No topo disso, é lamentável ao diretor que tenha sido necessário se render a alusões sexuais no sentido de causar graça entre o público adolescente. Porém, a despeito de todas essas travas no seu desenvolvimento, Alien Covenant consegue entregar uma satisfatória experiência. Algo que seu final aterrador e longe de qualquer desfecho feliz acerta ao gerar no público pouco alento, mas muita curiosidade pela próxima continuação.



quinta-feira, 20 de abril de 2017

Sinais de Cinza - A Peleja de Olney contra o Dragão da Maldade

(Brasil, 2015) Direção: Henrique Dantas. Com depoimentos de Nelson Pereira dos Santos, Ilua São Paulo, Pilar São Paulo, Olney Saão Paulo Jr., Luiz Paulino, Helena Ignez, dentre outros.


Por João Paulo Barreto

A urgência do cinema feito por Henrique Dantas não é algo a se negligenciar. Realizado antes de A Noite Escura da Alma, único documentário a abordar os mandos e desmandos políticos do clã Peixoto de Magalhães, bem como as barbáries causadas na Bahia pelos militares a partir do golpe de 1964, em Sinais de Cinza, sua lente volta para um individuo único. Alguém cuja trajetória ceifada de modo tão brutal nos privou de um cinema feito com afinco, coragem e contestação. A Peleja de Olney contra o Dragão da Maldade é uma obra que nos leva a refletir acerca da importância do resgate da memória, acerca da valorização do que é nosso em termos culturais e, o mais importante, nos alerta que não é tarde (ainda) para que esta mesma memória do cinema brasileiro possa ser conservada.

Aqui, o foco de Dantas está na curta e traumática trajetória de vida do cineasta Olney São Paulo, diretor acusado de subversivo pelo regime por conta da obra Manhã Cinzenta, supostamente exibida durante um voo sequestrado e desviado para Cuba por rebeldes contra intervenção militar no Brasil. Foi preso, torturado e, mesmo após ter sido solto pela quadrilha da ditadura, continuou perseguido física e psicologicamente pelos vermes do regime, algo que afetaria sua saúde de modo irremediável e o levaria a morrer em 1978, aos 41 anos de idade.  Através de depoimentos de figuras como Nelson Pereira dos Santos, Silvio Tendler, Luiz Paulino dos Santos, Helena Ignez, dentre outros, além dos filhos de Olney, Maria Pilar, Ilya São Paulo e Olney Júnior, o longa aborda a história do realizador através da força de sua própria obra.

A lenda viva Luiz Paulino é um dos entrevistados no projeto
É a partir das palavras daqueles ligados a Olney e das imagens de seus filmes projetados nas paredes de casas do sertão que sua narrativa de resistência é apresentada ao espectador. São longas como Grito da Terra, de 1964, no qual vemos um levante de lavradores famintos que atacam sacas de farinha. Obra marcante na filmografia baiana, além de ser um dos primeiros trabalhos do período a trazer personagens femininas distantes de uma postura subjugada; O Forte, que, baseado na obra de Adonias Filho, apresenta, através de uma ficção, um registro histórico do monumento do forte de São Marcelo; e Ciganos do Nordeste, filme que aborda a saga dos andarilhos em solo sertanejo.

Mas, além do resgate das imagens da obra de Olney, a força do registro realizado por Henrique Dantas está, também, nos depoimentos captados em sua pesquisa. Principalmente no registro das falas dos filhos do diretor, Ilya, Olney Jr. e Pilar. Há um peso nas palavras daquelas pessoas. Um peso que se mescla entre a frustração, a inércia e a tristeza, algo que Dantas capta sem oportunismo, mas com um senso de respeito pela dor daquelas pessoas, cujo sofrimento ainda teve um novo revés com a perda do irmão, Irving São Paulo, em 2006.

Nelsão definindo bem a presença cinematográfica de Olney
Quando vemos Olney Jr. cantar Robert Johnson, além de uma versão de Wish you Were Here, do Pink Floyd, percebemos que o poeta encontra ali seu modo particular de denotar a vontade de ter crescido ao lado de pai. Algo que vemos, também, nas lágrimas de Pilar ao lembrar tanto de Olney quanto do irmão Irving, e na fala dura e contundente de Ilya, que não se permite abater ao demonstrar de modo às vezes áspero, mas sem se deixar amargurar pela frustração, como se sente em relação à perda de seu velho.

Trata-se de um documentário que ousa. Um filme que traz em sua construção visual um modo bem sucedido de captar a energia do legado fílmico de Olney.

E, além disso, traz um alerta para que não se perca este legado, que se encontra abandonado e carecendo de restauro e conservação..


quarta-feira, 19 de abril de 2017

Vida

(Life, EUA, 2017) Direção: Daniel Espinosa. Com Jake Gyllenhaal, Rebeca Fergunson, Ryan Reynolds, Hiroyuki Sanada.


Por João Paulo Barreto

Vida, ficção científica/terror espacial dirigido por Daniel Espinosa, dos violentos e eficientes Dinheiro Fácil e Protegendo o Inimigo, traz em sua estrutura todos os elementos de acerto em filmes de horror no espaço sideral. Desde o mistério em torno do aparecimento do tal ser alienígena, passando pela sua revelação como uma ameaça aos astronautas, chegando à caçada e eliminação um a um dos integrantes da nave, o longa consegue criar uma boa atmosfera dentro de sua premissa.  

Com um plano sequência de abertura a referenciar o recente Gravidade, de Alfonso Cuarón, e uma trilha sonora marcante que valoriza sua intenção de desconforto e tensão para o espectador, a obra localiza bem seus personagens, demonstrando de modo bastante econômico as características que vão delinear suas personalidades e justificar suas ações durante todo o filme.

Dr. David Jordan (Gyllenhaal) diante de um ser longe da sua compreensão
Porém, todo o trabalho de construção do perigo rondando aquela criatura celular que cresce para se tornar uma espécie de polvo espacial se esvai quando o design de efeitos visuais opta por uma dar uma óbvia face maligna ao marciano apelidado de Calvin. Uma vez que vemos o surgimento do ser unicelular desde sua presença microscópica , a intenção de criar medo no espectador por conta da cara raivosa da criatura acaba por minimizar e tornar caricato seu impacto no espectador.

Manter-se fiel à proposta de impressionar justamente pela sugestão de perigo para, em seguida, entregar o verdadeiro terror físico teria sido uma opção mais feliz no desenvolvimento da trama. Contrariamente, o filme acaba cedendo ao clichê fácil, optando por inserir a tal expressão bestial do vilão de modo a ameaçar a tripulação e o público. 

Calvin prestes a mostrar a que veio
Apesar disso, Vida desenvolve-se bem em seus elementos de terror que remetem ao Alien de Ridley Scott, como quando coloca os tripulantes a caçar a criatura pelos corredores da estação espacial e sendo surpreendidos por ela quando menos esperam. Elementos que, claro, no clássico de quarenta anos atrás, eram inseridos de modo bem mais claustrofóbico por conta da ambientação escura e labiríntica do seu cenário. Aqui, no entanto, o ambiente clean e hermético da nave, somado aos efeitos especiais responsáveis pelo design de Calvin que deixam a desejar na criação em CGI do ser, acabam por reduzir o impacto de sua aparição.

Com um final corajoso, mas que, infelizmente, abre possibilidades para uma continuação um tanto descabida, Vida, mesmo com seus problemas, consegue entreter ao se ater no desconforto gerado por sua tensão. Uma pena que não souberam aprofundá-la através das várias possibilidades de horror que o seu roteiro poderia oferecer.


   

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Velozes e Furiosos 8

(The Fate of the Furious, EUA, 2017) Direção: F. Gary Gary. Com Vin Diesel, Dwayne Johnson, Jason Statham, Michelle Rodriguez, Kurt Russell, Scott Eastwood.


Por João Paulo Barreto

Talvez tenha sido a franquia Velozes e Furiosos a que mais exigiu do espectador e dos críticos a aplicação do termo suspensão da descrença. Não somente por ter alcançado tamanha longevidade com oito filmes em dezesseis anos, mas pela capacidade de sempre conseguir  superar os absurdos apresentados em cada um dos seus longas anteriores.

O que se vê na parte oito nada mais é do que uma reciclagem das ideias trazidas no decorrer de toda a série, levando em consideração, claro, a proposta de criar momentos ainda mais impactantes visualmente e que exijam dos tais veículos o máximo de suas já inacreditavelmente absurdas capacidades. E se aqui temos Dwayne Johnson desviando um míssil com as próprias mãos, bom, quanto mais absurdo, melhor.

Deckard e Luke: amor reprimido
Depois de colocar os carros com paraquedas saltando de um avião e com seus motores em pleno funcionamento na parte anterior, o que fazer para superar isso? Talvez essa tenha isso a principal pergunta dos produtores para seu roteirista Chris Morgan, responsável pelo desenvolvimento de quase todos os filmes da leva. “Vamos colocar um submarino na jogada!” Ao ver isso acontecendo na tela, o que lhe chega à mente é a percepção que eles terão que colocar as máquinas possantes no espaço sideral para fazer a nona ou a décima sequência surpreender.

Em se tratando de sua história e da interação entre seus personagens, o oitavo trabalho traz momentos de boa química, principalmente entre Johnson (figura que vem se destacando pelo carisma) e Jason Statham que, digam o que quiserem, precisam assumir que se amam e que sentem atração um pelo outro. Observar Luke levantando peso para se exibir para Deckard foi a comprovação máxima.

Charlize Theron emprestando credibilidade à série 
Mantendo a forçada ideia de “somos uma família”, algo que já soava pretensamente cafona lá em 2001, quando o primeiro chegou às telas, aqui, ao menos, há a inserção de personagens que, de fato, representam a criação de uma, como vemos no próprio Vin Diesel a homenagear a figura de Paul Walker batizando seu filho como Brian, nome do falecido ator na série.

Some a isso a presença de Charlize Theron cedendo sua credibilidade de “vencedora do Oscar (mas preciso pagar as contas)” ao filme, e lá está uma vilã que, apesar de ficar no mesmo ambiente durante quase 100% do tempo, apertando botões e tendo que demonstrar emoções ao simplesmente observar um monitor, convence no melhor estilo vilão Bond.

Toretto e Cypher: Traição? hmmmm, esse plot twist já estava evidente
No mais, lá estão as perseguições nas ruas de Nova York, desta vez sendo atacada por “carros zumbis”, corridas de marcha à ré nas vielas de Havana (com direito a lição de moral de Toretto e respeito à cultura cubana – toma, Trump!) e todas as piadas envolvendo o Sr. Ninguém, interpretado por Kurt Russell, aqui com a ajuda de Scott Eastwood, a vitima da vez no grupo de exímios motoristas que, não se sabe por qual razão, é sempre contratado pela agência do governo para resolver problemas que agentes treinados podem (e devem) resolver. Mas, divago.


No geral, o saldo é positivo. Qualquer erro e extravagância cometidos aqui, eles terão muitos outros longas para corrigir e superar. Para o bem ou para o mal. 

Por Trás do Céu - Entrevista Emílio Ociollo Netto

(Brasil, 2016) Direção: Caio Sóh. Com Emílio Orciollo Netto, Nathalia Dill, Renato Góes, Paula Burlamachi.


João Paulo Barreto

Por Trás do Céu, trabalho vencedor do prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular na edição do anos passado do CinePE, mais do que uma obra dentre as tantas que buscam representar um suposto universo fantástico existente no sertão nordestino, é um estudo pertinente do ser humano em relação aos seus traumas. Assistir ao filme de Caio Sóh é um exercício de análise do modo como a fuga e a busca do esquecimento de uma dor podem vir a proteger o individuo de impactos psicológicos ainda mais severos do que os que já se abateram sobre ele.

No longa, Aparecida (Nathalia Dill) e Edivaldo (Emílio Orciollo Netto) levam a vida em lavouras, cortando palma para alimentar o gado. A notícia da chegada do primeiro filho é recebida com susto e alegria. A comemoração é com rimas de repentistas. Entretanto, os traumas da violência, da dor e da perda não tardam a chegar. A fuga dos dois personagens centrais é tanto física quanto mental, principalmente para Aparecida, que em um novo mundo, esconde seu martírio em situações escapistas.

Aparecida (Nathalia Dill): Traumas do passado escondidos em sua ingenuidade
A tal fuga os leva a um estado de inércia, no qual a fantasia mental da mulher só não é tão presente quanto a sede de vingança do marido. Ela parece já ter se desligado do seu passado tenebroso, abraçando no processo não um futuro que possa se apresentar, mas uma realidade onírica, na qual a dor é suplantada, substituindo-a por questionamentos que beiram o infantil. Edivaldo, porém, ainda mantém vivo o sentimento de ódio por aqueles que o fizeram seguir naquela nova jornada. É justamente isso que o faz olhar para frente, mas sem esquecer o se passou.

Em visita a Salvador para divulgar o filme, Emílio Orciollo Netto afirma que “o que Por Trás do Céu propõe é um diálogo entre esse mundo fantástico, onírico e sonhador com o mundo realista. Com o mundo duro da realidade, do dia a dia.” Para o ator, é um filme que aborda uma dicotomia. “A gente encontra estes dois mundos. Que é o da Aparecida, o do sonho, e o do Edvaldo, que é o mundo da terra, do trabalho, do dia a dia”, observa.

Edvaldo (Orciollo Netto): Aspereza e tristeza para esconder a dor da perda
O diretor Caio Sóh, em seu roteiro, constrói personagens que seguem lutando contra a realidade que os cercam. É um filme que aborda a amargura, mas sem esquecer-se das inserções cômicas, como as do ladrão de cenas Micuim, vivido por um inspirado Renato Góes. Em um cenário folclórico, repleto de elementos estilizados, que vão desde asas em uma tartaruga, passando pelo figurino quase apocalíptico do personagem de Edivaldo, Sóh cria uma fábula descompromissada com o real, mas que cria reflexões centradas no palpável. Para o Orciollo Netto,  “o filme tem um compromisso com o sertão do sonho, do lúdico. Não se trata de um documentário que fala sobre a miséria no nordeste ou sobre as dificuldades de uma família. Ele é sobre um encontro, no qual se misturam estas estéticas do onírico, do mundo fantástico.”

Aparecida, em sua doçura e ingenuidade, parece ter a dolorosa trajetória de sua vida como um borrão de memória. Borrão esse que é obliterado justamente pelo modo quase infantil como a vida, agora, se apresenta aos seus olhos. No entanto, tal secura e fel da realidade não tardarão a fazê-la perceber o quão duro pode ser o mundo fora de todo aquele lirismo. E é deveras doloroso vê-la assumir a postura de amargura diante de um novo golpe que esta mesma vida lhe causa.

Emílio Orciollo Netto em visita a Salvador para divulgação

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Una

(Reino Unido, 2016) Direção: Benedict Andrews. Com Rooney Mara, Ben Mendelsohn, Riz Ahmed.


Por João Paulo Barreto

Há em Una, estreia no cinema do diretor Benedict Andrews, uma coragem semelhante à de Kubrick e a de Lars Von Trier. Enquanto o primeiro levou a obra de Nabokov ao cinema de modo a analisar o pedófilo Prof. Humbert adentrando em sua mente e observando suas fraquezas e tentações a partir de sua própria óptica (seja ela doentia ou não, definição que o filme não aprofunda), Von Trier inseriu na parte dois de sua obra essencial, Ninfomaníaca, uma cena na qual a protagonista disseca um também pedófilo através do sofrimento que ela acredita que o mesmo deva sentir na necessidade de dar vazão aos seus desejos criminosos.

Na obra de Andrews, cujo roteiro se baseia na peça escrita por David Harrower e adaptada aqui pelo próprio, tal julgamento, entretanto, é feito pelos dois lados. Não somente por uma óptica unilateral da vitima ou do perpetrador, ou de uma análise estritamente externa. Este acaba sendo o grande acerto da produção.

A proposta inicial de discussão do filme é analisar os traumas a partir da posição da vítima, que teve não somente seu corpo, mas sentimentos amorosos corrompidos aos 13 anos de idade. A protagonista título, seduzida por um homem mais velho, leva aquela cicatriz de forma solitária e conturbada até a fase adulta.  É quando finalmente decide confrontá-lo para, ao menos, compartilhar todo o sofrimento e trauma psicológico que sofreu não somente pela sedução, mas por ter sido abandonada física e afetivamente por aquele por quem se apaixonara e com quem teve sua primeira experiência sexual.

Una reencontra Ray após anos de traumas reprimidos
De um modo positivo da palavra, trata-se de um filme expositivo. Durante os noventa minutos de duração, vemos o reencontro dos dois depois de anos do ocorrido. Dali, descrições de sentimentos virão à tona de modo explosivo, com Una se abrindo pela primeira vez para alguém desde o momento em que percebeu que teve sua infância roubada. O fato da única pessoa que ela encontra para confiar aqueles sentimentos traumáticos ser justamente o homem que os causou, denota bastante da solidão sofrida pela jovem. Solidão não somente física, mas mental (“Você não faz nem ideia”, diz a jovem para sua mãe, denotando justamente sua solidão em todo aquele processo). Incapaz de sentir e de se relacionar, a personagem vivida por uma excelente Rooney Mara, responde com negativas a questionamentos sobre ter um namorado, busca fugas em transas casuais com estranhos e chora durante o sexo com alguém diretamente ligado ao seu primeiro amor.

Do lado de lá, está a presença de Ray, ou Peter, como é conhecido socialmente nos dias atuais, após quatro anos de reclusão e buscando fugir de seu passado criminoso. Na evolução de seu roteiro, Harrower opta por colocá-lo não em uma presença predatória ou exclusivamente doentia, mas em um estado de confusão mental e insegurança quanto aos seus sentimentos que, apesar de não justificar de modo algum suas atitudes, ao menos o insere dentro de uma categoria de personagem longe de clichês vilanescos ou construções unidimensionais. Trata-se de um homem que cometeu um crime grave ao dar vazão a um sentimento absurdo, mas que cometeu ato tão brutal quanto quando não pôde (ou foi impedido por circunstâncias fora de seu controle, como o filme exibe) demonstrar o quão importante Una era para sua vida, criando para a então adolescente uma ilusão ainda mais áspera.

Ray diante da vazão de um sentimento criminoso
Trata-se, entretanto, de uma obra cuja dissecação foca na perda sofrida pela sua protagonista. Presa a um sentimento e a ações que lhes foram apresentados de modo precoce, a infância que lhe foi extirpada e a face adulta que lhe é imposta acabam por machucá-la de modo irremediável. E enquanto Ray conseguiu uma nova vida e um novo nome para enterrar os seus erros do passado, sua vítima ficou presa àquele período. “Tenho o mesmo nome desde sempre. Vivo na mesma casa e sou julgada pelos mesmos vizinhos daquela época”, explica a jovem em meio ao desespero de sua dor.

Diferente de Paulina, obra de 2015 cujo desserviço para a sociedade é óbvio em seu discurso masculino acerca da submissão da vítima diante de criminosos supostamente criados por um meio e que têm nisso uma pretensa justificativa para seus atos monstruosos, Una oferece uma discussão mais rica em seu resultado final.

É um filme que não escolhe lados, preferindo dar ao espectador uma opção de conhecer as duas faces daquela história. Mas, felizmente, salienta que para o lado mais fraco daquela balança, a dilaceração psicológica foi bem mais intensa e que, por isso, seu perpetrador não necessita de comoção por parte do público, mas, sim, de seu desprezo.


quinta-feira, 30 de março de 2017

Ghost in the Shell

(EUA, 2017) Direção: Rupert Sanders. Com Scarlett Johansson, Pilou Asbæk, Takeshi Kitano, Juliette Binoche, Michael Pitt.


Por João Paulo Barreto

O desafio aqui é falar de Ghost in  the Shell, versão live action, sem cair na armadilha raivosa de criticar a escolha do elenco norte americano para viver personagens que, na animação, são orientais. Cinema é indústria. Indústria custa caro. Estampar a cara da Scarlett Johansson no pôster atrai investidores e público. E, no final, o interesse principal dos produtores é esse. Então, se não quiser assistir à versão live action, a excelente animação sempre servirá de consolo.

Dito isso, passemos a análise da obra propriamente dita. Como entretenimento, Ghost in the Shell funciona bastante. Trata-se de uma produção caprichada, repleta de boas sequências de ação, uma direção de arte que se destaca pelo modo como cria um futuro que, em parte, se vê de acordo com o esperado para a humanidade, no qual superpopulações se espremem em grandes metrópoles e a publicidade parece invadir o dia a dia das pessoas de forma incisiva. A cidade do filme, inclusive, mescla uma espécie de Nova Iorque futurista, com a Los Angeles de Blade Runner (em todas as suas óbvias referências) com a Tóquio original da animação.

Neste futuro, crimes são previstos com antecedência, algo que remete à obra de Phillip K. Dick, seres humanos podem ser aprimorados com tecnologia cibernética e ciborgues coexistem com pessoas. Major (vivida por Johansson) é uma agente da organização Section 9, que persegue um suposto terrorista virtual com a capacidade de hackear mentes que possuem melhorias cibernéticas.

Major em momento de reconstrução
É curioso observar como o filme trabalha a questão da solidão e dos questionamentos tão comuns à humanidade, mas a partir da óptica de um robô, ou, no caso, de um ciborgue, uma vez que Major possui apenas o cérebro humano. Neste sentido, o filme busca trazer certa profundidade à sua protagonista, colocando-a em uma busca que, diferente da que vemos na animação, até que enriquece a personagem, apesar de torná-la um tanto deslocada dentro da trama central, que na animação trata exclusivamente da caça ao terrorista Puppet Master, um ser virtual que consegue, como um vírus de computador, penetrar no sistema da organização a fim de destruí-la.

No longa, claro, há algumas mudanças referentes às motivações da protagonista, que ganha toda uma trama relacionada à busca de suas origens. Compreensível, uma vez que se trata do maior destaque do filme. Porém, é decepcionante perceber que os roteiristas Jamie Moss e William Wheeler cederam à armadilha de colocá-la em uma relação direta com o personagem do Puppet Master que, aqui, de modo deslocado, ganha uma face humanóide na figura de Michael Pitt. Ao ceder à tentação reducionista de usar um vilão convencional (e clichê), ao invés de se ater à animação original, a versão em live action perde força.

Puppet Master ganha a face de Michael Pitt
Do mesmo modo, a inserção de uma personagem que representa alguém diretamente oriundo do passado da Major não colabora tanto para o seu desenvolvimento. Entretanto, apesar disso, a justificativa para a diferença étnica e o uso de um nome oriental para a personagem de Johansson (Motoko Kusanagi) é bem justificada dentro da trama, uma vez que o invólucro (ou Shell, como queira) da Major pode até ser anglo-saxão, mas seu cérebo continua bem japonês, como confirma o nome (ok, haters, não deu para resistir a esse comentário).

Com cenas de luta e invasões com tiros que remetem a Matrix, algo divertido de se observar uma vez que o longa de 1999 já usava assumidamente toda e qualquer referência à animação lançada quatro anos antes, Ghost in the Shell peca por um falta de criatividade neste sentido, usando momentos clichê como personagens subindo em paredes ou atravessando vidraças com os cacos causando aquele já conhecido efeito visual. Ao menos, uma referência direta ao visual gore da animação é feita quando a personagem precisa destruir um dos seus membros. Mas as explosões faciais tão hipnotizantes no desenho fizeram falta. Compreensível, uma vez que na versão americana, a classificação indicativa (e consequentemente o faturamento) impediria.

Sequências já vistas em outros filmes, mas que ainda funcionam
Há, no entanto, momentos marcantes, como a participação de Takeshi Kitano como o fodão Aramaki, que no melhor estilo “I´m too old for this shit”, entrega, para regozijo dos fãs, uma ótima sequência de vingança. Ou ainda as assustadoras inserções das gueixas cibernéticas logo em sua abertura.E como é curiosamente bom ver Juliette Binoche em papeis tão pop!


Deixe de lado o mau humor. Desapegue e dê uma chance. Depois reveja o desenho duas ou três vezes para compensar. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

T2 Trainspotting

(UK, 2016) Direção: Danny Boyle. Com Ewan McGregor, Ewen Bremner, Robert Carlyle, Jonny Lee Miller.


Por João Paulo Barreto

Vinte anos é bastante tempo. Eu ainda estava no curso ginasial há vinte anos. Curioso olhar para trás e perceber suas mancadas e seus acertos. Seus arrependimentos, seus sucessos e seus lamentos. 
Reencontrar-se com seu passado, não somente com uma fase específica, mas todo um apanhado do que você fez durante esse tempo até o dia de hoje, pode ser um exercício ao mesmo tempo satisfatório e perigoso. Nostalgia vicia. Vicia quase (eu disse quase) da mesma forma que a heroína que vinte anos atrás dominava a vida de Renton (McGregor). Vicia quase da mesma forma que a mesma droga dominou a vida de Spud (Bremner) pelas últimas duas décadas. Vicia do mesmo modo que a violência e agressões físicas tornam a trajetória de Franco Begbie (Carlyle) mais aceitável em sua própria vida. E vicia tanto quanto o rancor que mantém Simon “Sick Boy” (Miller) vivo e, claro, mais dependente das carreiras de cocaína. Mas essa mesma nostalgia te ensina a refletir e a reparar antigos erros.

T2 Trainspotting possui uma cena na qual Sick Boy censura Renton por querer reviver fatos do passado daqueles quarentões, quando todos ainda estavam com vinte e poucos anos. “Isso é nostalgia. Você é um turista em sua própria juventude. Nós éramos jovens. Coisas ruins aconteceram”. E mesmo com toda sua roupagem pop, trilha sonora envolvente, cortes secos e rápidos característicos do estilo de Danny Boyle desde o primeiro filme de 1996, essa continuação não escapa de uma roupagem triste, de pessoas em busca de uma redenção e do próprio perdão pelos erros do passado. Pessoas que exibem agora as marcas da idade (e das frustrações e insanidades) em seus rostos. Na mesma cena, Simon censura Renton, fazendo-o lembrar que foi ele quem vendera a primeira dose de heroína ao falecido Tommy. Renton revida e atinge o amigo em cheio ao devolver a lembrança de que, agora, o bebê morto de Simon seria uma moça cheia de vida e planos para o futuro. T2 Trainspotting, ao final, se resume a isso. Golpes certeiros na consciência de cada um. Por debaixo da graça inerente ao longa, há um sabor amargo e uma camada de tristeza por debaixo do seu tom de comédia.

Down to the memory lane: Simon, Renton e Spud honram Tommy

Para o espectador, porém, é um reencontro com os personagens marcantes. A ideia de mostrar cada um deles em suas vidas atuais e compará-las com as pregressas causa graça, principalmente quando o foco está no ingênuo Spud, que, desde o inicio, já se mostra como a melhor coisa do filme, como quando explica a razão para seus fracassos está no fato de estar sempre uma hora atrasado para seus compromissos da vida pós-heroína. “Como eu poderia saber que existia algo como o horário de verão se eu fui um junkie pelos últimos vinte anos?” Pergunta relevante...

Trata-se de um filme que funcionaria bem sozinho, mas a opção de Danny Boyle em inserir constantes referências ao original, no começo, funciona. Porém, no decorrer das duas horas de projeção, acaba por cansar um pouco. Mas não ao ponto de enfraquecer demais o longa. No entanto, isso acaba por torná-lo dependente demais de seu predecessor. Mas entendemos que a pretensão de Boyle é a de fechar um ciclo. E, por isso, qualquer intenção forçada em referenciar a obra de 1996 acaba sendo relevada em nome da ótima atmosfera captada pela continuação.  E isso ele consegue sem necessariamente querer causar a mesma revolução visual que foi o longa noventista. Aqui, não houve nenhuma autocópia ou busca do impacto sensorial que foi a cena do banheiro. Aliás, é delicioso pescar as referências feitas durante a projeção, como quando Renton cai por cima de um capô de carro e sorri para a câmera, ou quando Spud se vê diante da mesma rua onde anos antes correra após um furto.

Begbie e sua fúria contra Renton
No aspecto visual, Boyle resgata os tons pastéis e os papeis de parede em casas populares escocesas em uma bem sucedida autorreferência. E nesta mesma passagem, uma sombra familiar na parede parte o coração do espectador. O momento em que Renton adentra em seu antigo quarto causa no espectador quase o mesmo impacto que nele mesmo. E o medo do efeito que o disco de Iggy Pop com a faixa Lust for Life causará nele é bem compreensível. Apenas a batida inicial da faixa já é suficiente para deixá-lo apreensivo. E o espectador parece também sentir o mesmo impacto e receio.

A percepção final é a de estarmos diante de três caras atormentados (Begbie não conta. Continua o mesmo psicopata de sempre). Atormentados e fracos, como podemos perceber pela recaída de Renton e Sick Boy pela agulha na veia. Apesar de seu discurso atualizado do monologo Choose a Life, Renton, mesmo com 46 anos, ainda denota o mesmo grau de imaturidade de vinte anos atrás. Não há muita redenção para aqueles indivíduos e é um alivio perceber que o filme não se rende a esse artifício sentimental. Quando vemos Begbie pedir perdão ao filho e se despedir de sua mulher, uma pretensa intenção piegas e inserida, mas, ainda bem, logo cai por terra. Aquele personagem está aquém de qualquer salvação. Sua dependência da violência já o dominara.

Contudo, é ótima a sensação ao percebemos ser Spud o mais forte dos três, o mais fiel ao seu processo de desintoxicação. Como disse o próprio Renton, Spud nunca machucou ninguém. É com regozijo que percebemos um final feliz para o coitado.