quinta-feira, 18 de maio de 2017

Corra!

(Get Out!, EUA, 2017) Direção: Jordan Peele. Com Daniel Kaluuya, Alison Williams, Bradley Whitford, Catherine Keener, LilRel Howery.


Por João Paulo Barreto

É surpreendente observar como scripts inventivos ainda podem surgir em uma indústria tão combalida e carente de boas ideias. Sair de uma sessão como a de Corra!, filme de estreia do diretor e roteirista Jordan Peele, dá ao cinéfilo uma sensação de alívio e felicidade por poder se perceber diante de um trabalho realmente original e recompensador para seu público.

Em Corra!, tal originalidade, entretanto, não se apresenta ao espectador somente no aspecto diversão e risadas (que o filme tem de sobra, friso), mas, também, no aspecto reflexão. É uma prova de que é possível unir os dois tipos de serviços, sem a necessidade de abrir mão da inteligência e sagacidade de sua proposta no intuito de captar apenas a simpatia de um público alvo, em geral adolescente que está no cinema mais pela pipoca e refrigerante do que pela fruição fílmica em si. E isso, infelizmente, é justamente o que vemos todos os anos na leva de produções descerebradas, criadas para uma audiência preguiçosa intelectualmente, que não se percebe estimulada e, por isso, não nota o mais do mesmo que lhe é oferecido.

Catherine Kenner faz sua mágica em Chris (Kaluuya)
Mas, enfim, a proposta desse texto não é a lamentação por conta da ladeira abaixo que o espectador de cinema vem descendo, mas, sim, tentar transferir ao leitor a experiência que foi assistir a Corra! Trata-se de um longa que abrange diversos estilos em sua proposta e em seu resultado final. Além de uma sagaz crítica ao racismo dentro da sociedade norte americana, o filme de Peele funciona como comédia das mais eficientes, uma vez que traz um coadjuvante inspirado e que, como de praxe em diversos filmes, apresenta um ator negro a se destacar na comédia em detrimento de seu protagonista. Porém, diferente de obras como Maquina Mortífera, Mensagem para Você, Um Espião e Meio, dentre tantas, aqui a questão racial, pelo menos nesse sentido, não se aplica tanto. No papel de Rod, LilRel Howery não surge como o personagem negro a servir de ponte para a trajetória do herói. Dono das melhores falas, ficamos, ao final, na dúvida em saber quem é o verdadeiro herói do filme.

Na história de Chris Washington (Kaluuya), um jovem e talentoso fotografo negro que visita os pais da namorada branca, Peele consegue inserir diversos elementos para um estudo da criação da racista e violenta sociedade caucasiana estadunidense, que criou seus pilares dentro de um desenvolvimento financeiro escravocrata e que tenta, até os dias atuais, manter-se dentro desse mesmo estilo de vida que busca suplantar vidas de afrodescendentes, seja de modo sanguinolento, como é constante observar nas ações violentas da policia americana, ou em vias excludentes no âmbito econômico, cultural e educacional. Tudo, claro, em prol do próprio conforto e segurança egoístas.  

Entre predadores: Chris começando a notar algo de estranho ali
E neste caminho, o roteiro do jovem realizador brinca com diversos estilos, sendo o principal, além  de comédia, o de filme de gênero, uma vez que todo o mistério e tensão existentes por trás das excêntricas atitudes da família que abraça de modo tão suspeito e entusiasmado o namorado da filha, consegue criar para Corra! um eficiente clima soturno, gerando no espectador uma constante apreensão até que o seu final, ao mesmo tempo catártico e perfeito em  sua justiça poética, entrega a melhor redenção ao publico.

Em uma obra repleta de surpresas, não vale a pena adentrar em descrições para alcançar limites de caracteres nessa crítica. Diante de tamanha originalidade e fôlego recuperado diante de uma constante produção cinematográfica em estado de looping, Corra! é uma obra que, quanto menos você souber antes de mergulhar naquele universo, melhor.


quinta-feira, 11 de maio de 2017

O Dia do Atentado

(Patriot´s Day, EUA, 2016) Direção: Peter Berg. Com Mark Wahlberg, Michelle Monagha, J.K. Simmons, John Goodman, Kevin Bacon.


Por João Paulo Barreto

Comum surgirem obras que retratam acontecimentos trágicos em solo americano. Normalmente, as dramatizações são produzidas com alguns anos de intervalo, cinco a seis, é o normal. Foi o caso de As Torres Gêmeas, de Oliver Stone, e Voo 93, petardo de Paul Greengrass. O Dia do Atentado, produção bancada por Mark Wahlberg e (vá lá) bem dirigida por Peter Berg foi lançada em 2016 nos Estados Unidos, apenas três anos após o atentado ocorrido em 15 de abril de 2013, quando duas bombas caseiras foram detonadas durante a Maratona de Boston.

É bem verdade que o filme exagera no quesito patriótico (desde o seu título original, obviamente). A mudança no nome nacional denota um dos poucos acertos nesse tipo de decisão quando obras estrangeiras chegam ao Brasil. Porém, há no roteiro escrito pelo próprio Berg, Matt Cook e Joshua Zetumer, quando descontadas as falas de efeito e momentos artificiais para captar a “honra de ser estadunidense”, uma boa construção de personagens, calcada, claro, na presença do produtor/protagonista Wahlberg, que entrega bons momentos quando, no papel de um policial responsável pela segurança da maratona, desabafa acerca dos traumas relacionados ao terrorismo, além de captar uma eficiente cena emocional, quando se desculpa com a esposa por tê-la colocado no local dos ataques.

Tommy (Wahlberg) refaz os passos dos terroristas 
Do mesmo modo, o trabalho de Berg, em conjunto com os sempre competentes Trent Reznor e Atticus Ross na criação de tensão através da trilha sonora, mantém o espectador vidrado nos acontecimentos ali encenados, algo que se torna contagiante a partir do momento em que os ataques são dramatizados pela produção. E aqui reside outro aspecto de acerto da obra: suas sequências de ação. Desde o momento em que a maratona sofre seu revés, até a crucial caça e captura dos dois irmãos responsáveis pelo ataque, a câmera de Berg, acompanhada por uma montagem que não sufoca a ação em cortes rápidos e desnecessários, traz o impacto daqueles acontecimentos de modo genuíno ao espectador, que, independente do clichê “respiro- aliviado-seguido-de-comemoração-dos-personagens” quando a poeira assenta, sente um peso parecido ser retirado de seus ombros.

Seguindo acerto semelhante, o desenho de produção, juntamente com a direção de arte e montagem, cria sequências eficientes mesmo quando não se trata de elementos de ação. Observe, por exemplo, o modo como o personagem de Wahlberg é utilizado para situar os investigadores no local e arredores de onde as explosões aconteceram, colocando a busca pelos dois transeuntes suspeitos de terrorismo através das câmeras de segurança nos comércios dos arredores. Uma cena simples que recria uma prática padrão em investigações, mas que, ao ser encenada dentro do contexto do filme e auxiliada pela montagem que exibe o resultado do senso geográfico do personagem, dá ritmo à narrativa, mesmo que usando de elementos mínimos.

Ao final, fica aquele incômodo ainda relacionado à patriotada excessiva da obra, no entanto, o filme traz uma louvável mensagem edificante de força e consolo às pessoas feridas e aos familiares dos mortos naquele fatídico quinze de abril.


domingo, 7 de maio de 2017

Alien: Covenant

(EUA, 2017) Direção: Ridley Scott. Com Michael Fassbender, Katherine Waterston, Billy Crudup.


Por João Paulo Barreto

Há uma percepção de que Ridley Scott busca, em Alien: Covenant, provar ao espectador que ainda é capaz de causar a mesma sensação claustrofóbica que conseguiu criar em 1979, com a sua incursão original no terror gerado pela criatura desenhada por H.R. Giger. No entanto, apesar de conseguir trazer de volta o horror e o gore, existe uma clara perda da eficiente ambientação de mistério seguida de catarse em detrimento de um espetáculo visual calcado apenas no uso da criatura como elemento artificial de ação descerebrada.

Surpreendendo pelo fato de trazer astronautas treinados entrando em um mundo completamente desprovidos de roupas especiais (ok, sem isso não haveria filme, mas...), o roteiro de John Logan e Dante Harper até consegue criar bons momentos para os fãs do gênero, quando vemos criaturas hibridas da forma de vida alienígena clássica surgirem de dentro do corpo de dois dos tripulantes. Do mesmo modo, ao observarmos o robô David (Fassbender, excelente) chegando ao planeta originalmente habitado pelos engenheiros criadores da vida na Terra (um dos momentos mais aterradores do longa).

David em sua bem adequada postura de criador
David, a propósito, é o melhor personagem do filme. O único com um objetivo concreto, mesmo que insano, e que consegue levá-lo à frente de modo ao mesmo tempo brutal e sutil, como um titeriteiro a brincar com toda a tripulação. Seu embate com quem ele chama de irmão, Walter, vivido também por Fassbender, traz os diálogos mais marcantes da obra. Denota, ao menos aqui, um apuro na criação de Logan e Harper, quando o roteiro de ambos referencia Byron na ascensão e loucura de David em sua relação com o Rei Ozymandias.

Com suas paredes repletas de planos e desenhos aludindo ao traço original de Giger, David é o que se pode chamar de criatura embriagada pela racionalidade e pragmatismo. Curiosamente, trata-se de um ser artificial, mas repleto de malícia e dissimulação, características genuinamente humanas. Desenvolvido por um homem confrontado intelectualmente por ele logo após seu nascimento, David só demonstra emoções quando se refere ao que cria, algo que gera reflexão justamente por conta da inexistência de qualquer piedade em seus atos. Na ficção científica espacial, afinal de contas, são poucas as criaturas cibernéticas que possuem. E na execução do seu plano, passo a passo vamos observando as nuances de seu caráter.

Ação meramente visual que beira ao vazio
Ainda em relação à tentativa de inserção da sufocante atmosfera vista no original de 1979, Scott recria bem o frenético plano dos sobreviventes em prender o ser entre os corredores da nave, utilizando os espaços fechados da Covenant de forma a ilustrar a claustrofobia do espaço. Porém, toda a sequência anterior, com a criatura ainda do lado de fora, perde seu impacto justamente por conta da clara tentativa de impressionar pelo aspecto visual e grandioso dos seus elementos, algo que acaba, ironicamente, tendo o efeito contrário justamente por banalizá-los. E o fato de serem duas criaturas distintas ilustra bem o critério descartável do seu uso.

No topo disso, é lamentável ao diretor que tenha sido necessário se render a alusões sexuais no sentido de causar graça entre o público adolescente. Porém, a despeito de todas essas travas no seu desenvolvimento, Alien Covenant consegue entregar uma satisfatória experiência. Algo que seu final aterrador e longe de qualquer desfecho feliz acerta ao gerar no público pouco alento, mas muita curiosidade pela próxima continuação.



quinta-feira, 20 de abril de 2017

Sinais de Cinza - A Peleja de Olney contra o Dragão da Maldade

(Brasil, 2015) Direção: Henrique Dantas. Com depoimentos de Nelson Pereira dos Santos, Ilua São Paulo, Pilar São Paulo, Olney Saão Paulo Jr., Luiz Paulino, Helena Ignez, dentre outros.


Por João Paulo Barreto

A urgência do cinema feito por Henrique Dantas não é algo a se negligenciar. Realizado antes de A Noite Escura da Alma, único documentário a abordar os mandos e desmandos políticos do clã Peixoto de Magalhães, bem como as barbáries causadas na Bahia pelos militares a partir do golpe de 1964, em Sinais de Cinza, sua lente volta para um individuo único. Alguém cuja trajetória ceifada de modo tão brutal nos privou de um cinema feito com afinco, coragem e contestação. A Peleja de Olney contra o Dragão da Maldade é uma obra que nos leva a refletir acerca da importância do resgate da memória, acerca da valorização do que é nosso em termos culturais e, o mais importante, nos alerta que não é tarde (ainda) para que esta mesma memória do cinema brasileiro possa ser conservada.

Aqui, o foco de Dantas está na curta e traumática trajetória de vida do cineasta Olney São Paulo, diretor acusado de subversivo pelo regime por conta da obra Manhã Cinzenta, supostamente exibida durante um voo sequestrado e desviado para Cuba por rebeldes contra intervenção militar no Brasil. Foi preso, torturado e, mesmo após ter sido solto pela quadrilha da ditadura, continuou perseguido física e psicologicamente pelos vermes do regime, algo que afetaria sua saúde de modo irremediável e o levaria a morrer em 1978, aos 41 anos de idade.  Através de depoimentos de figuras como Nelson Pereira dos Santos, Silvio Tendler, Luiz Paulino dos Santos, Helena Ignez, dentre outros, além dos filhos de Olney, Maria Pilar, Ilya São Paulo e Olney Júnior, o longa aborda a história do realizador através da força de sua própria obra.

A lenda viva Luiz Paulino é um dos entrevistados no projeto
É a partir das palavras daqueles ligados a Olney e das imagens de seus filmes projetados nas paredes de casas do sertão que sua narrativa de resistência é apresentada ao espectador. São longas como Grito da Terra, de 1964, no qual vemos um levante de lavradores famintos que atacam sacas de farinha. Obra marcante na filmografia baiana, além de ser um dos primeiros trabalhos do período a trazer personagens femininas distantes de uma postura subjugada; O Forte, que, baseado na obra de Adonias Filho, apresenta, através de uma ficção, um registro histórico do monumento do forte de São Marcelo; e Ciganos do Nordeste, filme que aborda a saga dos andarilhos em solo sertanejo.

Mas, além do resgate das imagens da obra de Olney, a força do registro realizado por Henrique Dantas está, também, nos depoimentos captados em sua pesquisa. Principalmente no registro das falas dos filhos do diretor, Ilya, Olney Jr. e Pilar. Há um peso nas palavras daquelas pessoas. Um peso que se mescla entre a frustração, a inércia e a tristeza, algo que Dantas capta sem oportunismo, mas com um senso de respeito pela dor daquelas pessoas, cujo sofrimento ainda teve um novo revés com a perda do irmão, Irving São Paulo, em 2006.

Nelsão definindo bem a presença cinematográfica de Olney
Quando vemos Olney Jr. cantar Robert Johnson, além de uma versão de Wish you Were Here, do Pink Floyd, percebemos que o poeta encontra ali seu modo particular de denotar a vontade de ter crescido ao lado de pai. Algo que vemos, também, nas lágrimas de Pilar ao lembrar tanto de Olney quanto do irmão Irving, e na fala dura e contundente de Ilya, que não se permite abater ao demonstrar de modo às vezes áspero, mas sem se deixar amargurar pela frustração, como se sente em relação à perda de seu velho.

Trata-se de um documentário que ousa. Um filme que traz em sua construção visual um modo bem sucedido de captar a energia do legado fílmico de Olney.

E, além disso, traz um alerta para que não se perca este legado, que se encontra abandonado e carecendo de restauro e conservação..


quarta-feira, 19 de abril de 2017

Vida

(Life, EUA, 2017) Direção: Daniel Espinosa. Com Jake Gyllenhaal, Rebeca Fergunson, Ryan Reynolds, Hiroyuki Sanada.


Por João Paulo Barreto

Vida, ficção científica/terror espacial dirigido por Daniel Espinosa, dos violentos e eficientes Dinheiro Fácil e Protegendo o Inimigo, traz em sua estrutura todos os elementos de acerto em filmes de horror no espaço sideral. Desde o mistério em torno do aparecimento do tal ser alienígena, passando pela sua revelação como uma ameaça aos astronautas, chegando à caçada e eliminação um a um dos integrantes da nave, o longa consegue criar uma boa atmosfera dentro de sua premissa.  

Com um plano sequência de abertura a referenciar o recente Gravidade, de Alfonso Cuarón, e uma trilha sonora marcante que valoriza sua intenção de desconforto e tensão para o espectador, a obra localiza bem seus personagens, demonstrando de modo bastante econômico as características que vão delinear suas personalidades e justificar suas ações durante todo o filme.

Dr. David Jordan (Gyllenhaal) diante de um ser longe da sua compreensão
Porém, todo o trabalho de construção do perigo rondando aquela criatura celular que cresce para se tornar uma espécie de polvo espacial se esvai quando o design de efeitos visuais opta por uma dar uma óbvia face maligna ao marciano apelidado de Calvin. Uma vez que vemos o surgimento do ser unicelular desde sua presença microscópica , a intenção de criar medo no espectador por conta da cara raivosa da criatura acaba por minimizar e tornar caricato seu impacto no espectador.

Manter-se fiel à proposta de impressionar justamente pela sugestão de perigo para, em seguida, entregar o verdadeiro terror físico teria sido uma opção mais feliz no desenvolvimento da trama. Contrariamente, o filme acaba cedendo ao clichê fácil, optando por inserir a tal expressão bestial do vilão de modo a ameaçar a tripulação e o público. 

Calvin prestes a mostrar a que veio
Apesar disso, Vida desenvolve-se bem em seus elementos de terror que remetem ao Alien de Ridley Scott, como quando coloca os tripulantes a caçar a criatura pelos corredores da estação espacial e sendo surpreendidos por ela quando menos esperam. Elementos que, claro, no clássico de quarenta anos atrás, eram inseridos de modo bem mais claustrofóbico por conta da ambientação escura e labiríntica do seu cenário. Aqui, no entanto, o ambiente clean e hermético da nave, somado aos efeitos especiais responsáveis pelo design de Calvin que deixam a desejar na criação em CGI do ser, acabam por reduzir o impacto de sua aparição.

Com um final corajoso, mas que, infelizmente, abre possibilidades para uma continuação um tanto descabida, Vida, mesmo com seus problemas, consegue entreter ao se ater no desconforto gerado por sua tensão. Uma pena que não souberam aprofundá-la através das várias possibilidades de horror que o seu roteiro poderia oferecer.


   

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Velozes e Furiosos 8

(The Fate of the Furious, EUA, 2017) Direção: F. Gary Gary. Com Vin Diesel, Dwayne Johnson, Jason Statham, Michelle Rodriguez, Kurt Russell, Scott Eastwood.


Por João Paulo Barreto

Talvez tenha sido a franquia Velozes e Furiosos a que mais exigiu do espectador e dos críticos a aplicação do termo suspensão da descrença. Não somente por ter alcançado tamanha longevidade com oito filmes em dezesseis anos, mas pela capacidade de sempre conseguir  superar os absurdos apresentados em cada um dos seus longas anteriores.

O que se vê na parte oito nada mais é do que uma reciclagem das ideias trazidas no decorrer de toda a série, levando em consideração, claro, a proposta de criar momentos ainda mais impactantes visualmente e que exijam dos tais veículos o máximo de suas já inacreditavelmente absurdas capacidades. E se aqui temos Dwayne Johnson desviando um míssil com as próprias mãos, bom, quanto mais absurdo, melhor.

Deckard e Luke: amor reprimido
Depois de colocar os carros com paraquedas saltando de um avião e com seus motores em pleno funcionamento na parte anterior, o que fazer para superar isso? Talvez essa tenha isso a principal pergunta dos produtores para seu roteirista Chris Morgan, responsável pelo desenvolvimento de quase todos os filmes da leva. “Vamos colocar um submarino na jogada!” Ao ver isso acontecendo na tela, o que lhe chega à mente é a percepção que eles terão que colocar as máquinas possantes no espaço sideral para fazer a nona ou a décima sequência surpreender.

Em se tratando de sua história e da interação entre seus personagens, o oitavo trabalho traz momentos de boa química, principalmente entre Johnson (figura que vem se destacando pelo carisma) e Jason Statham que, digam o que quiserem, precisam assumir que se amam e que sentem atração um pelo outro. Observar Luke levantando peso para se exibir para Deckard foi a comprovação máxima.

Charlize Theron emprestando credibilidade à série 
Mantendo a forçada ideia de “somos uma família”, algo que já soava pretensamente cafona lá em 2001, quando o primeiro chegou às telas, aqui, ao menos, há a inserção de personagens que, de fato, representam a criação de uma, como vemos no próprio Vin Diesel a homenagear a figura de Paul Walker batizando seu filho como Brian, nome do falecido ator na série.

Some a isso a presença de Charlize Theron cedendo sua credibilidade de “vencedora do Oscar (mas preciso pagar as contas)” ao filme, e lá está uma vilã que, apesar de ficar no mesmo ambiente durante quase 100% do tempo, apertando botões e tendo que demonstrar emoções ao simplesmente observar um monitor, convence no melhor estilo vilão Bond.

Toretto e Cypher: Traição? hmmmm, esse plot twist já estava evidente
No mais, lá estão as perseguições nas ruas de Nova York, desta vez sendo atacada por “carros zumbis”, corridas de marcha à ré nas vielas de Havana (com direito a lição de moral de Toretto e respeito à cultura cubana – toma, Trump!) e todas as piadas envolvendo o Sr. Ninguém, interpretado por Kurt Russell, aqui com a ajuda de Scott Eastwood, a vitima da vez no grupo de exímios motoristas que, não se sabe por qual razão, é sempre contratado pela agência do governo para resolver problemas que agentes treinados podem (e devem) resolver. Mas, divago.


No geral, o saldo é positivo. Qualquer erro e extravagância cometidos aqui, eles terão muitos outros longas para corrigir e superar. Para o bem ou para o mal. 

Por Trás do Céu - Entrevista Emílio Ociollo Netto

(Brasil, 2016) Direção: Caio Sóh. Com Emílio Orciollo Netto, Nathalia Dill, Renato Góes, Paula Burlamachi.


João Paulo Barreto

Por Trás do Céu, trabalho vencedor do prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular na edição do anos passado do CinePE, mais do que uma obra dentre as tantas que buscam representar um suposto universo fantástico existente no sertão nordestino, é um estudo pertinente do ser humano em relação aos seus traumas. Assistir ao filme de Caio Sóh é um exercício de análise do modo como a fuga e a busca do esquecimento de uma dor podem vir a proteger o individuo de impactos psicológicos ainda mais severos do que os que já se abateram sobre ele.

No longa, Aparecida (Nathalia Dill) e Edivaldo (Emílio Orciollo Netto) levam a vida em lavouras, cortando palma para alimentar o gado. A notícia da chegada do primeiro filho é recebida com susto e alegria. A comemoração é com rimas de repentistas. Entretanto, os traumas da violência, da dor e da perda não tardam a chegar. A fuga dos dois personagens centrais é tanto física quanto mental, principalmente para Aparecida, que em um novo mundo, esconde seu martírio em situações escapistas.

Aparecida (Nathalia Dill): Traumas do passado escondidos em sua ingenuidade
A tal fuga os leva a um estado de inércia, no qual a fantasia mental da mulher só não é tão presente quanto a sede de vingança do marido. Ela parece já ter se desligado do seu passado tenebroso, abraçando no processo não um futuro que possa se apresentar, mas uma realidade onírica, na qual a dor é suplantada, substituindo-a por questionamentos que beiram o infantil. Edivaldo, porém, ainda mantém vivo o sentimento de ódio por aqueles que o fizeram seguir naquela nova jornada. É justamente isso que o faz olhar para frente, mas sem esquecer o se passou.

Em visita a Salvador para divulgar o filme, Emílio Orciollo Netto afirma que “o que Por Trás do Céu propõe é um diálogo entre esse mundo fantástico, onírico e sonhador com o mundo realista. Com o mundo duro da realidade, do dia a dia.” Para o ator, é um filme que aborda uma dicotomia. “A gente encontra estes dois mundos. Que é o da Aparecida, o do sonho, e o do Edvaldo, que é o mundo da terra, do trabalho, do dia a dia”, observa.

Edvaldo (Orciollo Netto): Aspereza e tristeza para esconder a dor da perda
O diretor Caio Sóh, em seu roteiro, constrói personagens que seguem lutando contra a realidade que os cercam. É um filme que aborda a amargura, mas sem esquecer-se das inserções cômicas, como as do ladrão de cenas Micuim, vivido por um inspirado Renato Góes. Em um cenário folclórico, repleto de elementos estilizados, que vão desde asas em uma tartaruga, passando pelo figurino quase apocalíptico do personagem de Edivaldo, Sóh cria uma fábula descompromissada com o real, mas que cria reflexões centradas no palpável. Para o Orciollo Netto,  “o filme tem um compromisso com o sertão do sonho, do lúdico. Não se trata de um documentário que fala sobre a miséria no nordeste ou sobre as dificuldades de uma família. Ele é sobre um encontro, no qual se misturam estas estéticas do onírico, do mundo fantástico.”

Aparecida, em sua doçura e ingenuidade, parece ter a dolorosa trajetória de sua vida como um borrão de memória. Borrão esse que é obliterado justamente pelo modo quase infantil como a vida, agora, se apresenta aos seus olhos. No entanto, tal secura e fel da realidade não tardarão a fazê-la perceber o quão duro pode ser o mundo fora de todo aquele lirismo. E é deveras doloroso vê-la assumir a postura de amargura diante de um novo golpe que esta mesma vida lhe causa.

Emílio Orciollo Netto em visita a Salvador para divulgação

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Una

(Reino Unido, 2016) Direção: Benedict Andrews. Com Rooney Mara, Ben Mendelsohn, Riz Ahmed.


Por João Paulo Barreto

Há em Una, estreia no cinema do diretor Benedict Andrews, uma coragem semelhante à de Kubrick e a de Lars Von Trier. Enquanto o primeiro levou a obra de Nabokov ao cinema de modo a analisar o pedófilo Prof. Humbert adentrando em sua mente e observando suas fraquezas e tentações a partir de sua própria óptica (seja ela doentia ou não, definição que o filme não aprofunda), Von Trier inseriu na parte dois de sua obra essencial, Ninfomaníaca, uma cena na qual a protagonista disseca um também pedófilo através do sofrimento que ela acredita que o mesmo deva sentir na necessidade de dar vazão aos seus desejos criminosos.

Na obra de Andrews, cujo roteiro se baseia na peça escrita por David Harrower e adaptada aqui pelo próprio, tal julgamento, entretanto, é feito pelos dois lados. Não somente por uma óptica unilateral da vitima ou do perpetrador, ou de uma análise estritamente externa. Este acaba sendo o grande acerto da produção.

A proposta inicial de discussão do filme é analisar os traumas a partir da posição da vítima, que teve não somente seu corpo, mas sentimentos amorosos corrompidos aos 13 anos de idade. A protagonista título, seduzida por um homem mais velho, leva aquela cicatriz de forma solitária e conturbada até a fase adulta.  É quando finalmente decide confrontá-lo para, ao menos, compartilhar todo o sofrimento e trauma psicológico que sofreu não somente pela sedução, mas por ter sido abandonada física e afetivamente por aquele por quem se apaixonara e com quem teve sua primeira experiência sexual.

Una reencontra Ray após anos de traumas reprimidos
De um modo positivo da palavra, trata-se de um filme expositivo. Durante os noventa minutos de duração, vemos o reencontro dos dois depois de anos do ocorrido. Dali, descrições de sentimentos virão à tona de modo explosivo, com Una se abrindo pela primeira vez para alguém desde o momento em que percebeu que teve sua infância roubada. O fato da única pessoa que ela encontra para confiar aqueles sentimentos traumáticos ser justamente o homem que os causou, denota bastante da solidão sofrida pela jovem. Solidão não somente física, mas mental (“Você não faz nem ideia”, diz a jovem para sua mãe, denotando justamente sua solidão em todo aquele processo). Incapaz de sentir e de se relacionar, a personagem vivida por uma excelente Rooney Mara, responde com negativas a questionamentos sobre ter um namorado, busca fugas em transas casuais com estranhos e chora durante o sexo com alguém diretamente ligado ao seu primeiro amor.

Do lado de lá, está a presença de Ray, ou Peter, como é conhecido socialmente nos dias atuais, após quatro anos de reclusão e buscando fugir de seu passado criminoso. Na evolução de seu roteiro, Harrower opta por colocá-lo não em uma presença predatória ou exclusivamente doentia, mas em um estado de confusão mental e insegurança quanto aos seus sentimentos que, apesar de não justificar de modo algum suas atitudes, ao menos o insere dentro de uma categoria de personagem longe de clichês vilanescos ou construções unidimensionais. Trata-se de um homem que cometeu um crime grave ao dar vazão a um sentimento absurdo, mas que cometeu ato tão brutal quanto quando não pôde (ou foi impedido por circunstâncias fora de seu controle, como o filme exibe) demonstrar o quão importante Una era para sua vida, criando para a então adolescente uma ilusão ainda mais áspera.

Ray diante da vazão de um sentimento criminoso
Trata-se, entretanto, de uma obra cuja dissecação foca na perda sofrida pela sua protagonista. Presa a um sentimento e a ações que lhes foram apresentados de modo precoce, a infância que lhe foi extirpada e a face adulta que lhe é imposta acabam por machucá-la de modo irremediável. E enquanto Ray conseguiu uma nova vida e um novo nome para enterrar os seus erros do passado, sua vítima ficou presa àquele período. “Tenho o mesmo nome desde sempre. Vivo na mesma casa e sou julgada pelos mesmos vizinhos daquela época”, explica a jovem em meio ao desespero de sua dor.

Diferente de Paulina, obra de 2015 cujo desserviço para a sociedade é óbvio em seu discurso masculino acerca da submissão da vítima diante de criminosos supostamente criados por um meio e que têm nisso uma pretensa justificativa para seus atos monstruosos, Una oferece uma discussão mais rica em seu resultado final.

É um filme que não escolhe lados, preferindo dar ao espectador uma opção de conhecer as duas faces daquela história. Mas, felizmente, salienta que para o lado mais fraco daquela balança, a dilaceração psicológica foi bem mais intensa e que, por isso, seu perpetrador não necessita de comoção por parte do público, mas, sim, de seu desprezo.


quinta-feira, 30 de março de 2017

Ghost in the Shell

(EUA, 2017) Direção: Rupert Sanders. Com Scarlett Johansson, Pilou Asbæk, Takeshi Kitano, Juliette Binoche, Michael Pitt.


Por João Paulo Barreto

O desafio aqui é falar de Ghost in  the Shell, versão live action, sem cair na armadilha raivosa de criticar a escolha do elenco norte americano para viver personagens que, na animação, são orientais. Cinema é indústria. Indústria custa caro. Estampar a cara da Scarlett Johansson no pôster atrai investidores e público. E, no final, o interesse principal dos produtores é esse. Então, se não quiser assistir à versão live action, a excelente animação sempre servirá de consolo.

Dito isso, passemos a análise da obra propriamente dita. Como entretenimento, Ghost in the Shell funciona bastante. Trata-se de uma produção caprichada, repleta de boas sequências de ação, uma direção de arte que se destaca pelo modo como cria um futuro que, em parte, se vê de acordo com o esperado para a humanidade, no qual superpopulações se espremem em grandes metrópoles e a publicidade parece invadir o dia a dia das pessoas de forma incisiva. A cidade do filme, inclusive, mescla uma espécie de Nova Iorque futurista, com a Los Angeles de Blade Runner (em todas as suas óbvias referências) com a Tóquio original da animação.

Neste futuro, crimes são previstos com antecedência, algo que remete à obra de Phillip K. Dick, seres humanos podem ser aprimorados com tecnologia cibernética e ciborgues coexistem com pessoas. Major (vivida por Johansson) é uma agente da organização Section 9, que persegue um suposto terrorista virtual com a capacidade de hackear mentes que possuem melhorias cibernéticas.

Major em momento de reconstrução
É curioso observar como o filme trabalha a questão da solidão e dos questionamentos tão comuns à humanidade, mas a partir da óptica de um robô, ou, no caso, de um ciborgue, uma vez que Major possui apenas o cérebro humano. Neste sentido, o filme busca trazer certa profundidade à sua protagonista, colocando-a em uma busca que, diferente da que vemos na animação, até que enriquece a personagem, apesar de torná-la um tanto deslocada dentro da trama central, que na animação trata exclusivamente da caça ao terrorista Puppet Master, um ser virtual que consegue, como um vírus de computador, penetrar no sistema da organização a fim de destruí-la.

No longa, claro, há algumas mudanças referentes às motivações da protagonista, que ganha toda uma trama relacionada à busca de suas origens. Compreensível, uma vez que se trata do maior destaque do filme. Porém, é decepcionante perceber que os roteiristas Jamie Moss e William Wheeler cederam à armadilha de colocá-la em uma relação direta com o personagem do Puppet Master que, aqui, de modo deslocado, ganha uma face humanóide na figura de Michael Pitt. Ao ceder à tentação reducionista de usar um vilão convencional (e clichê), ao invés de se ater à animação original, a versão em live action perde força.

Puppet Master ganha a face de Michael Pitt
Do mesmo modo, a inserção de uma personagem que representa alguém diretamente oriundo do passado da Major não colabora tanto para o seu desenvolvimento. Entretanto, apesar disso, a justificativa para a diferença étnica e o uso de um nome oriental para a personagem de Johansson (Motoko Kusanagi) é bem justificada dentro da trama, uma vez que o invólucro (ou Shell, como queira) da Major pode até ser anglo-saxão, mas seu cérebo continua bem japonês, como confirma o nome (ok, haters, não deu para resistir a esse comentário).

Com cenas de luta e invasões com tiros que remetem a Matrix, algo divertido de se observar uma vez que o longa de 1999 já usava assumidamente toda e qualquer referência à animação lançada quatro anos antes, Ghost in the Shell peca por um falta de criatividade neste sentido, usando momentos clichê como personagens subindo em paredes ou atravessando vidraças com os cacos causando aquele já conhecido efeito visual. Ao menos, uma referência direta ao visual gore da animação é feita quando a personagem precisa destruir um dos seus membros. Mas as explosões faciais tão hipnotizantes no desenho fizeram falta. Compreensível, uma vez que na versão americana, a classificação indicativa (e consequentemente o faturamento) impediria.

Sequências já vistas em outros filmes, mas que ainda funcionam
Há, no entanto, momentos marcantes, como a participação de Takeshi Kitano como o fodão Aramaki, que no melhor estilo “I´m too old for this shit”, entrega, para regozijo dos fãs, uma ótima sequência de vingança. Ou ainda as assustadoras inserções das gueixas cibernéticas logo em sua abertura.E como é curiosamente bom ver Juliette Binoche em papeis tão pop!


Deixe de lado o mau humor. Desapegue e dê uma chance. Depois reveja o desenho duas ou três vezes para compensar. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

T2 Trainspotting

(UK, 2016) Direção: Danny Boyle. Com Ewan McGregor, Ewen Bremner, Robert Carlyle, Jonny Lee Miller.


Por João Paulo Barreto

Vinte anos é bastante tempo. Eu ainda estava no curso ginasial há vinte anos. Curioso olhar para trás e perceber suas mancadas e seus acertos. Seus arrependimentos, seus sucessos e seus lamentos. 
Reencontrar-se com seu passado, não somente com uma fase específica, mas todo um apanhado do que você fez durante esse tempo até o dia de hoje, pode ser um exercício ao mesmo tempo satisfatório e perigoso. Nostalgia vicia. Vicia quase (eu disse quase) da mesma forma que a heroína que vinte anos atrás dominava a vida de Renton (McGregor). Vicia quase da mesma forma que a mesma droga dominou a vida de Spud (Bremner) pelas últimas duas décadas. Vicia do mesmo modo que a violência e agressões físicas tornam a trajetória de Franco Begbie (Carlyle) mais aceitável em sua própria vida. E vicia tanto quanto o rancor que mantém Simon “Sick Boy” (Miller) vivo e, claro, mais dependente das carreiras de cocaína. Mas essa mesma nostalgia te ensina a refletir e a reparar antigos erros.

T2 Trainspotting possui uma cena na qual Sick Boy censura Renton por querer reviver fatos do passado daqueles quarentões, quando todos ainda estavam com vinte e poucos anos. “Isso é nostalgia. Você é um turista em sua própria juventude. Nós éramos jovens. Coisas ruins aconteceram”. E mesmo com toda sua roupagem pop, trilha sonora envolvente, cortes secos e rápidos característicos do estilo de Danny Boyle desde o primeiro filme de 1996, essa continuação não escapa de uma roupagem triste, de pessoas em busca de uma redenção e do próprio perdão pelos erros do passado. Pessoas que exibem agora as marcas da idade (e das frustrações e insanidades) em seus rostos. Na mesma cena, Simon censura Renton, fazendo-o lembrar que foi ele quem vendera a primeira dose de heroína ao falecido Tommy. Renton revida e atinge o amigo em cheio ao devolver a lembrança de que, agora, o bebê morto de Simon seria uma moça cheia de vida e planos para o futuro. T2 Trainspotting, ao final, se resume a isso. Golpes certeiros na consciência de cada um. Por debaixo da graça inerente ao longa, há um sabor amargo e uma camada de tristeza por debaixo do seu tom de comédia.

Down to the memory lane: Simon, Renton e Spud honram Tommy

Para o espectador, porém, é um reencontro com os personagens marcantes. A ideia de mostrar cada um deles em suas vidas atuais e compará-las com as pregressas causa graça, principalmente quando o foco está no ingênuo Spud, que, desde o inicio, já se mostra como a melhor coisa do filme, como quando explica a razão para seus fracassos está no fato de estar sempre uma hora atrasado para seus compromissos da vida pós-heroína. “Como eu poderia saber que existia algo como o horário de verão se eu fui um junkie pelos últimos vinte anos?” Pergunta relevante...

Trata-se de um filme que funcionaria bem sozinho, mas a opção de Danny Boyle em inserir constantes referências ao original, no começo, funciona. Porém, no decorrer das duas horas de projeção, acaba por cansar um pouco. Mas não ao ponto de enfraquecer demais o longa. No entanto, isso acaba por torná-lo dependente demais de seu predecessor. Mas entendemos que a pretensão de Boyle é a de fechar um ciclo. E, por isso, qualquer intenção forçada em referenciar a obra de 1996 acaba sendo relevada em nome da ótima atmosfera captada pela continuação.  E isso ele consegue sem necessariamente querer causar a mesma revolução visual que foi o longa noventista. Aqui, não houve nenhuma autocópia ou busca do impacto sensorial que foi a cena do banheiro. Aliás, é delicioso pescar as referências feitas durante a projeção, como quando Renton cai por cima de um capô de carro e sorri para a câmera, ou quando Spud se vê diante da mesma rua onde anos antes correra após um furto.

Begbie e sua fúria contra Renton
No aspecto visual, Boyle resgata os tons pastéis e os papeis de parede em casas populares escocesas em uma bem sucedida autorreferência. E nesta mesma passagem, uma sombra familiar na parede parte o coração do espectador. O momento em que Renton adentra em seu antigo quarto causa no espectador quase o mesmo impacto que nele mesmo. E o medo do efeito que o disco de Iggy Pop com a faixa Lust for Life causará nele é bem compreensível. Apenas a batida inicial da faixa já é suficiente para deixá-lo apreensivo. E o espectador parece também sentir o mesmo impacto e receio.

A percepção final é a de estarmos diante de três caras atormentados (Begbie não conta. Continua o mesmo psicopata de sempre). Atormentados e fracos, como podemos perceber pela recaída de Renton e Sick Boy pela agulha na veia. Apesar de seu discurso atualizado do monologo Choose a Life, Renton, mesmo com 46 anos, ainda denota o mesmo grau de imaturidade de vinte anos atrás. Não há muita redenção para aqueles indivíduos e é um alivio perceber que o filme não se rende a esse artifício sentimental. Quando vemos Begbie pedir perdão ao filho e se despedir de sua mulher, uma pretensa intenção piegas e inserida, mas, ainda bem, logo cai por terra. Aquele personagem está aquém de qualquer salvação. Sua dependência da violência já o dominara.

Contudo, é ótima a sensação ao percebemos ser Spud o mais forte dos três, o mais fiel ao seu processo de desintoxicação. Como disse o próprio Renton, Spud nunca machucou ninguém. É com regozijo que percebemos um final feliz para o coitado. 

terça-feira, 21 de março de 2017

Fragmentado

(Split, 2016, EUA) Direção: M. Night Shyamalan. Com James McAvoy, Anya Taylor Joy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica Sula.


Por João Paulo Barreto

Com uma carreira repleta de altos e baixos (mais baixos do que altos, é bem verdade), M. Night Shyamalan acerta a mão em Fragmentado, trabalho no qual ele volta a mirar nas questões psicológicas do ser humano e suas consequências para o mundo à sua volta tal qual havia feito no subestimado A Visita, seu longa anterior.

Aqui, diferente da psicopatia cruel e displicente do casal de idosos do filme de 2015, James McCavoy traz para seus vinte e quatro personagens (mas somente seis evidenciados e desenvolvidos pelo filme) uma mescla exata da citada crueldade, de frieza, doçura, inocência, pragmatismo, aspereza e brutalidade, características inerentes a cada uma das pessoas que habitam sua mente. Com uma atuação precisa, o jovem ator escocês parece flutuar de uma performance para a outra, trazendo para o público uma marca reconhecível para cada personalidade que habita o corpo do protagonista, seja ela a postura inflexível, um olhar ou um modo infantil de se expressar. Em uma construção na qual as nuances são imprescindíveis, McAvoy coloca cada uma delas em serviço da sua excelência.

McAvoy e sua versão infantil
Na história, o atormentado homem sequestra três jovens e as mantêm como reféns em um ambiente subterrâneo. O pretexto é o de que elas servirão como alimento para uma criatura que ainda surgirá, algo que logo percebemos se tratar de uma nova personalidade do sequestrador. Em seu roteiro, Shyamalan cria uma atmosfera incomoda de tensão justamente pela ideia de que o foco dessa vez possui raízes no universo real, sem qualquer tipo de escape relacionado com algo sobrenatural ou imaterial. O perigo aqui é calcado no plausível. E o incomodo principal do espectador está diante justamente desse fato.  

Na figura da personagem de Anya Taylor-Joy, que já havia se destacado no thriller A Bruxa, Shyamalan aproveita para explorar uma de suas marcas como roteirista que é a perda da inocência infantil, além de voltar a aplicar outra marca que é a da câmera subjetiva a partir do olhar de uma criança. No caso, Casey Cooke, personagem vivida por Joy na adolescência, possui um passado de abusos, no qual foi molestada pelo seu tio (a forma como o diretor opta por evidenciar choca pelo modo ao mesmo tempo sutil e monstruoso como tal fato é mostrado). Neste arco, a riqueza de interpretações que o roteiro oferece denota bem a profundidade da escrita do diretor. Em uma história na qual um personagem monstruoso esconde sua verdadeira face no intuito de conquistar a confiança de uma criança, o que dizer de um personagem que possui várias personalidades, mas todas elas são fieis ao próprio conceito de autenticidade, sem dissimulações ou truques? Ele é o que é. Curioso exercício o de imaginar quem é o verdadeiro monstro aqui. 

Casey em seu primeiro momento de desespero
Mas o que impressiona de fato no filme ainda é a atuação de McAvoy. Seja em uma sutil homenagem de Shyamalan ao seu principal ídolo, Alfred Hichcock, com tomadas que referenciam Norman Bates e Psicose (principalmente quando uma personalidade feminina do protagonista é inserida em rápidos vislumbres para depois se revelar), ou quando a tal última e definitiva pessoa na mente dele é trazida à vida e sua característica animalesca é evidenciada de modo ao mesmo tempo fascinante e asqueroso.  

É bom tê-lo de volta à velha forma, M. Night.


quinta-feira, 16 de março de 2017

Entrevista: Finnegan Oldfield

O ator durante visita a São Paulo na divulgação de Os Cowboys
Finnegan Oldfield esteve no Brasil em 2016, ocasião em que divulgou Os Cowboys durante o Festival Varilux de Cinema Francês, no Rio de Janeiro e São Paulo. Filme atual em relação à situação do Estado Islâmico e a adesão de jovens europeus à doutrina de terror preconizada pela organização, Os Cowboys, apesar de ter sua história centrada no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, traz uma reflexão precisa para o que acontece no velho continente (principalmente na França) nos últimos anos.

Sobre esses aspectos da obra e outros assuntos, Finnegan Oldfield conversou com o blog Película Virtual.

OS COWBOYS ME REMETEU EM DIVERSAS CIRCUNSTÂNCIAS AO CLÁSSICO DE JOHN FORD, RASTROS DE ÓDIO.

Sim, há diversas semelhantes. Mesmo não sendo uma refilmagem e eu não tendo utilizado o Rastros de Ódio em minha pesquisa, Thomas (Bidegan, diretor) me mostrou outros filmes na construção de Os Cowboys, como Cidade das Ilusões (Fat City), de John Huston, que não chega a ser um western, mas é uma obra que aborda a transmissão de uma pessoa para outra. É disso que fala o filme, mas utilizando todo esse viés e os códigos todos dos filmes de faroeste. Foi exatamente isso que ele quis fazer. Utilizando essa referência nos filmes de faroeste, como o uso dos planos abertos de montanhas e paisagens, por exemplo. Como no momento em que ele está fumando um cachimbo da paz junto aos talibans, em outra cena vemos pessoas a emboscá-los de cima de um prédio como se fossem índios nos desfiladeiros. A partir de um certo momento, o filme passa a ser um faroeste, principalmente quando já o vemos com seu revolver em punho e na cintura.

SEU PERSONAGEM NO FILME É BEM SOLITÁRIO. COMO SE DEU A SUA CONSTRUÇÃO?

Eu li muitas vezes o roteiro. Foram muitas conversas com o Thomas (Bidegain) sobre a personagem e suas ideias de como ele queria que esse adolescente se transformasse em um homem, em um cowboy. E isso foi muito interessante para o trabalho de ator e foi um desafio que eu encontrei para fazer esse papel.

A FRANÇA VEM PASSANDO POR UM PERÍODO CONTURBADO EM RELAÇÃO À POLÍTICA E A GUERRA CONTRA O EXTREMISMO DE ORIGEM RELIGIOSA. COMO FOI ABORDAR ESSE TEMA NO FILME?

Curiosamente, no caso de Os Cowboys, o filme foi feito antes dos atentados ao Charlie Hebbo, antes dos atentados de novembro de 2015. Isso o torna um filme ainda mais atual. Outros diretores realizaram trabalhos com temas relacionados e acabaram pagando o preço de não ver suas obras sendo lançadas por conta do contexto. Os Cowboys foi lançado na França em 15 de novembro de 2015, dois dias após os atentados. A dúvida que surgiu na época foi na possibilidade de lançá-lo ou não. Decidimos levar adiante a data justamente para não deixar que o terrorismo começasse a dar as ordens no cinema. Eu concordo com o Thomas Bidegain (diretor de Os Cowboys) quando ele diz que é preferível assistir a uma obra como essa do que aos noticiários que ficam mostrando sem parar esse assunto. É preferível ver um filme como esse do que os canais de notícias que exibem sem parar imagens dos atentados sem se aprofundar nos fatos. Concordo que a gente tem que estar informado sobre o que acontece, mas os filmes possuem uma outra maneira de contar a história.


EXATAMENTE. INCLUSIVE, ACHO QUE O FILME TEVE UMA CORAGEM IMPRESSIONANTE DE ABORDAR UM TEMA TÃO DELICADO QUANTO A PRESENÇA DE CÉLULAS TERRORISTAS NA FRANÇA. E ISSO JUSTAMENTE NA ÉPOCA DOS ATAQUES EM PARIS.

Foi complicado. Podemos dizer que esses fatos acabaram nos alcançando. A realidade alcançou a ficção do filme. Quando fomos filmar na Índia, todos nos diziam para ter cuidado por conta de riscos de terroristas e, enquanto nós estávamos lá filmando, os atentados ao Charlie Hebdo aconteceram. Bem ali, no centro de Paris. E decidimos continuar filmando. E essa foi a mesma atitude quando chegou a hora de lançar o longa

QUAL A SUA POSIÇÃO COMO CIDADÃO FRANCÊS DIANTE DESTE MOMENTO? É POSSÍVEL UMA COMPARAÇÃO COM A POSTURA DOS ESTADUNIDENSES APÓS O 11 DE SETEMBRO?

É uma difícil comparação por conta da diferença de escalas dos acontecimentos em relação a França e aos EUA. A nossa vida passou a ser pontuada por atentados. A gente lembra do 11 de setembro, dos atentados a Londres, a Madrid, ao Charlie Hebdo. E, ao mesmo tempo, estamos distantes disso tudo. É um pouco disso que o filme fala, também. No filme, quando o personagem vê na TV as torres gêmeas em chamas, ele se sente como se recebesse um cartão postal da irmã pedindo por ajuda. E a gente na consegue entender o que significa  enquanto não vivemos isso na casa da gente.



O FILME ABORDA UMA QUESTÃO DELICADA QUE É A SEDUÇÃO DO ESTADO ISLÂMICO PARA COM JOVENS ÁRABES E EUROPEUS. GEROU CONTROVÉRSIAS NA OCASIÃO DO LANÇAMENTO E PRODUÇÃO. DO MESMO MODO, ELE ABORDA PONTOS RELACIONADOS A PRECONCEITOS, RACISMO E XENOFOBIA. COMO SE DEU ESSA ABORDAGEM DO ROTEIRO?

O filme, na verdade, apresenta uma questão da emancipação dessa jovem. Talvez, se ele se passasse em outra época, como os anos 1980, ela talvez tivesse seguido para outro lugar, como Londres, morar em um cubículo e ficar se drogando. E a historia começa antes disso, em 1997, quando ainda não era comum que os jovens se juntassem ao Estado Islâmico. No fundo, é uma história sobre pessoas comuns que vão se sentir aspiradas por essa agitação e confusão que acontece no mundo. Em relação ao racismo, é verdade que o pai é bem aquela figura francesa que tem aquela postura xenofóbica e alguns comentários racistas acerca de imigrantes. Na metáfora do filme, o pai acaba considerando que essas pessoas sejam como os índios. Já o filho, não. Ele passa a ver os estrangeiros de uma maneira muito mais aberta. E isso é o que fará dele um cowboy, um herói. O Thomas queria fazer um filme sobre essa abertura de espírito. Sobre a mistura de raças. Sobre como é possível aprender as lições dos seus ancestrais e de como o conhecimento passa de uma geração para outra.

EM SEUS FILMES ANTERIORES, HÁ UMA CONSTANTE ABORDAGEM DE CUNHO SEXUAL. COMO SE DEU ESSE PROCESSO DE ESCOLHAS DE PAPÉIS?

Não cheguei a ver muitos filmes franceses com temáticas sexuais e não há muitos que sigam essa vertente. Em relação às minhas escolhas, são temas interessantes. Por isso eu aceitei fazer esses filmes. Para Mineurs 27, o que me interessou foi como uma pessoa consegue crescer tendo sido vitima de abusos, como ela consegue superar isso. Bang Gang seguiu o mesmo questionamento de como os jovens vivem essa liberdade sexual e experiências nas quais eles podem erra e em seguida se corrigir e superar tudo isso. Principalmente a visão que as outras pessoas têm disso em tempos nos quais as redes sociais são tão ativas.

QUAIS SÃO OS SEUS PRÓXIMOS PROJETOS?

Já estou com um novo filme pronto, dirigido por Bertrand Bonello (diretor de Os Amores da Casa de Tolerância e Saint Laurent). O filme se chama Nocturama e aborda um grupo de jovens de esquerda que colocam bombas em Paris. São jovens que não percebem muito bem o que estão fazendo, inconsequentes que começam a perceber que fizeram algo muito errado e começam a perceber a gravidade de seus atos. É quando o filme começa a ser algo que se passa entre quatro paredes.  Esse roteiro foi escrito antes de todos os atentados e se chamava antes Paris é uma Festa, mas precisou ter seu título modificado.

Os Cowboys

(Les Cowboys, França, 2015) Direção: Thomas Bidegain. Com François Damiens, Finnegan Oldfield, John C. Reilly.


Por João Paulo Barreto

Os Cowboys, longa de estreia do diretor Thomas Bidegain, roteirista por trás do doloroso Ferrugem e Osso, de 2012, traz em seu título um curioso uso para a expressão que o batiza. Em uma clara alusão a Rastros de Ódio, a obra francesa atualiza questões como xenofobia e racismo para um contexto do século XXI. No entanto, aqui, substituem-se os comanches por muçulmanos extremistas e o sequestro físico e forçado pelo intelectual e religioso. Ao invés de índios a observar de cima das rochas do Monument Valley, extremista caminham em lajes enquanto enquadram seu alvo.  O resultado traz a mesma dor de John Wayne ao precisar resgatar a sobrinha, só que representada pelo pai vivido por François Damiens na busca pela filha, que deixa a França ao ser doutrinada pelo namorado mulçumano e convencida a participar de ataques 
terroristas.

Em sua construção, o filme apresenta diversos elementos que aludem ao estilo que seu título sugere. Porém, tais elementos não se relacionam à ambientação clássica que o espectador se acostumou a ver em westerns, mas se adéquam a um terror insano, representado pela inércia de um pai que percebe ter perdido a filha não somente de forma física, mas, bem antes disso, de forma sentimental, quando ela abdica de qualquer contato com a família por conta da fé cega na qual foi levada a acreditar. Junto ao filho George (Finnegan Oldfield), Alain (Damiens) passa a dedicar sua vida ao resgate da filha, a quem começa procurar através de pistas que vai seguindo através do contato com supostas células terroristas. Aos poucos, a dureza áspera que existe nos dois cowboys do título cede lugar ao desespero.

Derrocada física e psicológica: Alain, com o filho George, em busca de sua filha
A perda da filha mais velha se torna a derrocada de toda uma família. A dor da ausência transforma a figura austera e durona de Alain em pouco mais que uma sombra do que ele foi, algo que passa a influenciar, também, seu filho George, que se vê ligado à busca da irmã da mesma forma obcecada que o pai. Nesta rendição, o rapaz abre mão de sua juventude, passando a se dedicar integralmente à localização da irmã, algo que, curiosamente, o leva, a partir de acontecimentos trágicos, a construir sua própria vida, identidade e personalidade.

Trata-se de um filme cuja maior reflexão está na discussão acerca da xenofobia que ele oferece. Como em determinada cena, quando uma mulher, em solo francês, é espancada somente pelo fato de usar um hijab (espécie de xale) típico da mulher mulçumana. E quando, em um tempo no qual um cidadão assumidamente xenofóbico ocupa o maior cargo do executivo estadunidense, a reflexão oferecida por Os Cowboys ganha ainda mais força.

George conta com uma inesperada ajuda na sua busca
Aqui, vemos um título que alude a um gênero tipicamente americano referenciar uma obra na qual a reflexão vai justamente contra a corrente de ódio e separação preconizada pela política dominante atual. Não à toa, o único personagem americano do filme (vivido de forma soturna por um excelente John C. Reilly) trata-se de um oportunista mercenário que se infiltra na cultura mulçumana para facilitar seus interesses escusos. 

Nada mais próprio à função exercida por seu país desde muito tempo.

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Entrevista com Finnegan Oldfield

O ator durante a visita a São Paulo em 2016
Finnegan Oldfield esteve no Brasil em 2016, ocasião em que divulgou Os Cowboys durante o Festival Varilux de Cinema Francês, no Rio de Janeiro e São Paulo. Filme atual em relação à situação do Estado Islâmico e a adesão de jovens europeus à doutrina de terror preconizada pela organização, Os Cowboys, apesar de ter sua história centrada no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, traz uma reflexão precisa para o que acontece no velho continente (principalmente na França) nos últimos anos.

Sobre esses aspectos da obra e outros assuntos, Finnegan Oldfield conversou com o blog Película Virtual.

OS COWBOYS ME REMETEU EM DIVERSAS CIRCUNSTÂNCIAS AO CLÁSSICO DE JOHN FORD, RASTROS DE ÓDIO.

Sim, há diversas semelhantes. Mesmo não sendo uma refilmagem e eu não tendo utilizado o Rastros de Ódio em minha pesquisa, Thomas (Bidegan, diretor) me mostrou outros filmes na construção de Os Cowboys, como Cidade das Ilusões (Fat City), de John Huston, que não chega a ser um western, mas é uma obra que aborda a transmissão de uma pessoa para outra. É disso que fala o filme, mas utilizando todo esse viés e os códigos todos dos filmes de faroeste. Foi exatamente isso que ele quis fazer. Utilizando essa referência nos filmes de faroeste, como o uso dos planos abertos de montanhas e paisagens, por exemplo. Como no momento em que ele está fumando um cachimbo da paz junto aos talibans, em outra cena vemos pessoas a emboscá-los de cima de um prédio como se fossem índios nos desfiladeiros. A partir de um certo momento, o filme passa a ser um faroeste, principalmente quando já o vemos com seu revolver em punho e na cintura.

SEU PERSONAGEM NO FILME É BEM SOLITÁRIO. COMO SE DEU A SUA CONSTRUÇÃO?

Eu li muitas vezes o roteiro. Foram muitas conversas com o Thomas (Bidegain) sobre a personagem e suas ideias de como ele queria que esse adolescente se transformasse em um homem, em um cowboy. E isso foi muito interessante para o trabalho de ator e foi um desafio que eu encontrei para fazer esse papel.

A FRANÇA VEM PASSANDO POR UM PERÍODO CONTURBADO EM RELAÇÃO À POLÍTICA E A GUERRA CONTRA O EXTREMISMO DE ORIGEM RELIGIOSA. COMO FOI ABORDAR ESSE TEMA NO FILME?

Curiosamente, no caso de Os Cowboys, o filme foi feito antes dos atentados ao Charlie Hebbo, antes dos atentados de novembro de 2015. Isso o torna um filme ainda mais atual. Outros diretores realizaram trabalhos com temas relacionados e acabaram pagando o preço de não ver suas obras sendo lançadas por conta do contexto. Os Cowboys foi lançado na França em 15 de novembro de 2015, dois dias após os atentados. A dúvida que surgiu na época foi na possibilidade de lançá-lo ou não. Decidimos levar adiante a data justamente para não deixar que o terrorismo começasse a dar as ordens no cinema. Eu concordo com o Thomas Bidegain (diretor de Os Cowboys) quando ele diz que é preferível assistir a uma obra como essa do que aos noticiários que ficam mostrando sem parar esse assunto. É preferível ver um filme como esse do que os canais de notícias que exibem sem parar imagens dos atentados sem se aprofundar nos fatos. Concordo que a gente tem que estar informado sobre o que acontece, mas os filmes possuem uma outra maneira de contar a história.



EXATAMENTE. INCLUSIVE, ACHO QUE O FILME TEVE UMA CORAGEM IMPRESSIONANTE DE ABORDAR UM TEMA TÃO DELICADO QUANTO A PRESENÇA DE CÉLULAS TERRORISTAS NA FRANÇA. E ISSO JUSTAMENTE NA ÉPOCA DOS ATAQUES EM PARIS.

Foi complicado. Podemos dizer que esses fatos acabaram nos alcançando. A realidade alcançou a ficção do filme. Quando fomos filmar na Índia, todos nos diziam para ter cuidado por conta de riscos de terroristas e, enquanto nós estávamos lá filmando, os atentados ao Charlie Hebdo aconteceram. Bem ali, no centro de Paris. E decidimos continuar filmando. E essa foi a mesma atitude quando chegou a hora de lançar o longa

QUAL A SUA POSIÇÃO COMO CIDADÃO FRANCÊS DIANTE DESTE MOMENTO? É POSSÍVEL UMA COMPARAÇÃO COM A POSTURA DOS ESTADUNIDENSES APÓS O 11 DE SETEMBRO?

É uma difícil comparação por conta da diferença de escalas dos acontecimentos em relação a França e aos EUA. A nossa vida passou a ser pontuada por atentados. A gente lembra do 11 de setembro, dos atentados a Londres, a Madrid, ao Charlie Hebdo. E, ao mesmo tempo, estamos distantes disso tudo. É um pouco disso que o filme fala, também. No filme, quando o personagem vê na TV as torres gêmeas em chamas, ele se sente como se recebesse um cartão postal da irmã pedindo por ajuda. E a gente na consegue entender o que significa  enquanto não vivemos isso na casa da gente.

O FILME ABORDA UMA QUESTÃO DELICADA QUE É A SEDUÇÃO DO ESTADO ISLÂMICO PARA COM JOVENS ÁRABES E EUROPEUS. GEROU CONTROVÉRSIAS NA OCASIÃO DO LANÇAMENTO E PRODUÇÃO. DO MESMO MODO, ELE ABORDA PONTOS RELACIONADOS A PRECONCEITOS, RACISMO E XENOFOBIA. COMO SE DEU ESSA ABORDAGEM DO ROTEIRO?

O filme, na verdade, apresenta uma questão da emancipação dessa jovem. Talvez, se ele se passasse em outra época, como os anos 1980, ela talvez tivesse seguido para outro lugar, como Londres, morar em um cubículo e ficar se drogando. E a historia começa antes disso, em 1997, quando ainda não era comum que os jovens se juntassem ao Estado Islâmico. No fundo, é uma história sobre pessoas comuns que vão se sentir aspiradas por essa agitação e confusão que acontece no mundo. Em relação ao racismo, é verdade que o pai é bem aquela figura francesa que tem aquela postura xenofóbica e alguns comentários racistas acerca de imigrantes. Na metáfora do filme, o pai acaba considerando que essas pessoas sejam como os índios. Já o filho, não. Ele passa a ver os estrangeiros de uma maneira muito mais aberta. E isso é o que fará dele um cowboy, um herói. O Thomas queria fazer um filme sobre essa abertura de espírito. Sobre a mistura de raças. Sobre como é possível aprender as lições dos seus ancestrais e de como o conhecimento passa de uma geração para outra.



EM SEUS FILMES ANTERIORES, HÁ UMA CONSTANTE ABORDAGEM DE CUNHO SEXUAL. COMO SE DERAM ESSAS ESCOLHAS?

Não cheguei a ver muitos filmes franceses com temáticas sexuais e não há muitos que sigam essa vertente. Em relação às minhas escolhas, são temas interessantes. Por isso eu aceitei fazer esses filmes. Para Mineurs 27, o que me interessou foi como uma pessoa consegue crescer tendo sido vitima de abusos, como ela consegue superar isso. Bang Gang seguiu o mesmo questionamento de como os jovens vivem essa liberdade sexual e experiências nas quais eles podem erra e em seguida se corrigir e superar tudo isso. Principalmente a visão que as outras pessoas têm disso em tempos nos quais as redes sociais são tão ativas.

QUAIS SÃO OS SEUS PRÓXIMOS PROJETOS?

Já estou com um novo filme pronto, dirigido por Bertrand Bonello (diretor de Os Amores da Casa de Tolerância e Saint Laurent). O filme se chama Nocturama e aborda um grupo de jovens de esquerda que colocam bombas em Paris. São jovens que não percebem muito bem o que estão fazendo, inconsequentes que começam a perceber que fizeram algo muito errado e começam a perceber a gravidade de seus atos. É quando o filme começa a ser algo que se passa entre quatro paredes.  Esse roteiro foi escrito antes de todos os atentados e se chamava antes Paris é uma Festa, mas precisou ter seu título modificado.