segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Revista Muito - Eryk Rocha - Cinema Novo

Na edição de 25 de setembro da Revista Muito, encartada semanalmente no Jornal A Tarde, tive a honra de ver publicada a entrevista que fiz com o cineasta Eryk Rocha.

Na conversa, o diretor do premiado documentário Cinema Novo, filme vencedor na categoria em Cannes esse ano, e longa de abertura do Festival de Brasília 2016, falou sobre a experiência de trazer à tona obra tão impactante.

Clique no link para ler a entrevista e a crítica do filme e, abaixo, você confere a versão impressa da revista.

http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1804341-eryk-rocha-quero-pensar-o-cinema-como-traducao-poetica







sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Meu Rei

(Mon Roi, França, 2015) Direção: Maïwenn. Com Vincent Cassel, Emmanuelle Bercot, Louis Garrel.


Por João Paulo Barreto

Marie-Antoniette, ou simplesmente Tony, se entrega à descida de uma montanha sobre os velozes esquis para neve. Parece um gesto suicida de sua parte. Mas, até o momento final, quando se machuca seriamente, sente o vento gelado no rosto, sente seus cabelos esvoaçarem de modo refrescante e, o mais importante, sente uma emoção que, apesar de saber se tratar puramente da adrenalina, ela não se importa com sua origem artificial e previsível: quer vivê-la com a maior intensidade possível.

A descrição acima se adéqua, também, a um momento anterior da vida de Tony. Ao conhecer Giorgio em uma boate, relembra-o do fato de que já o havia encontrado anteriormente. Quase como em um prólogo de sua vida que está para começar no final daquela madrugada, tomando café da manhã com aquele homem, o tempo em que foi garçonete e que o serviu vem à tona como uma lembrança antiga. É a partir deste reencontro que os dois se envolvem e a descida intensa na vida de Tony começa a se assemelhar bastante com a mesma que abre o filme, quando seu inicio promissor, excitante e emocionante ainda não pareceria terminar do modo traumático e amargo como acabou.

Os sorrisos iniciais que não tardarão a se perder.
“Não se deve ter mais nada a perder para se amar de verdade. Deve-se superar as maiores alturas para desafiar esse abismo”, afirma Tony durante uma de suas audiências como advogada. E sua vida no momento em que se envolve com o bom vivant Giorgio se assemelha muito àqueles fatos. São dias exuberantes, de alegria contagiante, de sexo intenso, de emoções que não lhe cabem. Os sorrisos são constantes e os planos para o futuro não poderiam ser melhores. A gravidez não tarda a chegar e os planos felizes parecem se multiplicar dia após dia.

Neste ponto, ainda durante a gestação, aquele relacionamento sofre seu primeiro revés, com a necessidade de Giorgio em cuidar de uma ex-namorada suicida começando a influenciar negativamente a sua relação com Tony. As crises se iniciam, as brigas também, e a violência e  gritos entre os dois só é apaziguado com a chegada de Simbad, o bebê que nasce com um olhar sério e beleza impar. Os dias parecem novamente esperançosos, mas, claro, sabemos se tratar apenas de uma trégua. Na distância física de Giorgio, que viaja a trabalho, ou em sua necessidade de manter-se sempre em festas, como se ainda tivesse vinte e poucos anos, outros reveses daquela relação.

A chegada de Simbad e a esperança fugaz de uma relação
Meu Rei, em certos aspectos, lembra Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e seu modo de exibir os vestígios e desgastes de uma relação, quando o desrespeito mutuo suplanta sorrisos e carícias. No entanto, aqui, não há nenhuma outra opção além de encarar aquelas dores. Na pele de Giorgio, Vicent Cassel traz uma jovialidade comum aos seus personagens. Um carisma que se perde ao passar do tempo. Já em Emmanuelle Bercot, vemos na sua Tony um olhar de curiosidade e insegurança, algo que, gradativamente, se transforma em decepção e tristeza. É um filme que demonstra de modo áspero como um relacionamento pode se tornar tão pernicioso, ao ponto de até mesmo a coisa mais bela oriunda dele, uma criança, não ser mais capaz de torná-lo válido de qualquer esforço em mantê-lo.

Enquanto vemos Tony se recuperar de sua grave lesão no joelho em uma clínica especializada e suas memórias nos levar às lembranças daquela irrecuperável relação, notamos como aquelas duas fases de sua vida se complementam, sendo que apenas uma é passível de se obter algum êxito. Entre ela e Giorgio pouco se salva. E a aspereza que fica para trás reverbera naquele relacionamento que sempre estará ligada por conta da vida que os dois criaram e compartilham.

O silêncio passivo agressivo de Giorgio em seu momento final junto a Tony deixa claro, no entanto, que aquelas lesões nunca irão se curar.


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Sete Homens e um Destino

(The Magnificent Seven, EUA, 2016) Direção: Antoine Fuqua. Com Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Vicent D’Onofrio, Byung-hun Lee, Martin Sensmeier, Haley Bennett.


Por João Paulo Barreto

Alguns filmes são como pilares. Instituições. Não se deve ousar sequer pensar na possibilidade de refilmagens, adaptações para séries de TV ou reimaginações. É o caso de obras como O Poderoso Chefão, Taxi Driver ou Rastros de Ódio. Claro, hoje há uma tendência, modinha mesmo, de se adaptar para TV ou refilmar sucessos. Típico caso de ausência de novas ideias. caso. Algumas podem dar certo, outras passam longe (vide a bem sucedida série Fargo ou o horror chamado Ben Hur). Então, foi com certa desconfiança, mas uma pitada de boa fé, que vi há alguns meses o primeiro trailer do novo Sete Homens e um Destino.

E acabou se revelando uma grata surpresa em termos de qualidade a adaptação do clássico de John Sturges, que contava com Yul Brynner e Steve McQueen encabeçando um elenco, junto a James Coburn, Charles Bronson e Robert Vaughn. Aqui, Denzel Washington e Chris Pratt repetem a química conseguida entre os protagonistas do filme de 1960 que, desta vez, tem na presença de Antoine Fuqua uma direção firme para as cenas de ação nas quais não comete o erro de modernizá-las ou de trazer uma montagem com cortes acelerados, algo bem comum nas propostas de atualização de clássicos.

Washington e Pratt: à altura de Brynner e McQueen
Em um plot bem semelhante ao que vimos na versão original (que já se tratava de uma reimaginação para a obra de Kurosawa, Os Sete Samurais), o latifundiário e assassino Bartholomew Bogue (Sarsgaard) decide tomar à força uma cidade por conta de suas terras. No processo, mata diversos membros da comunidade, o que leva um grupo deles a procurar vingança e justiça contratando o caçador de recompensas Chisolm (Washington) que recruta mais seis matadores para fazer o serviço.

Com uma estrutura inicial de apresentação dos personagens que remete em modo de tributo ao clássico de 1960, como quando vemos um duelo semelhante ao que vimos com James Coburn a usar uma faca contra um revolver (aqui, um grampo de cabelo resolve), a escolha dos novos integrantes do bando demonstra-se bem eficiente. A começar por um inseguro Ethan Hawke a viver Goodnight Robicheaux, pistoleiro cuja lenda é alimentada por uma precisão no tiro, mas que esconde os traumas da guerra a torná-lo incapaz de matar novamente. Outro que surpreende é Vincent D’Onofrio, ator cujo controle vocal já é notório (veja-o em Demolidor e compare com seu personagem aqui) e que usa sua corpulência de modo impressionante na pele do brutamontes Jack Horne, ou o “urso em roupas humanas” como define Josh Faraday, vivido com o carisma habitual de Chris Pratt.

Emma Cullen em busca de justiça e/ou vingança
Além disso, na presença da viúva Emma Cullen (Bennet), uma personagem feminina forte e determinada, sem a comum fragilidade vista em alguns filmes, o longa de Fuqua acerta ao torná-la uma das figuras chaves da trama, cujo desfecho forte e que exibe um passado em comum entre dois outros antagonistas (algo que remete claramente ao final de Era uma vez no Oeste) colabora para enriquecer ainda mais a história.

Pecando apenas por não tornar muito factível o interesse do índio Red Harvest (Sensmeier) na empreitada, algo que é observado pela forma incomum como ele se aproxima do bando, ou no modo como a desistência de um dos integrantes é previsivelmente contornada pelo seu retorno em um momento crucial do embate contra os homens de Bogue,  o roteiro de Nic Pizzolato e Richard Wenk cumpre bem sua intenção de homenagear o longa de 56 anos atrás, imprimindo uma roupagem sem firulas, que faz jus a estrutura dos westerns clássicos.


Ao pontuar apenas o seu final com o famoso tema original composto por Elmer Bernstein, o filme de Antoine Fuqua acerta ao optar por uma identidade própria, algo alcançado com eficiência pela trilha composta pelo saudoso James Horner, aqui em seu último trabalho.

Os Sete Magníficos em sua nova versão

domingo, 18 de setembro de 2016

Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva IX


Orquestra Invisível Let´s Dance (São Paulo, 2016, 20min) Direção: Alice Riff.

Com uma estrutura já convencional de apresentação de personagem, o documentário Orquestra Invisível Let´s Dance tem justamente nessa escolha de desenvolvimento sua principal falha. Ao optar pela captação de depoimentos de maneira um tanto repetitiva, sem inovar nos discursos um após o outro, o filme acaba precisando da redundância de uma narração em voz over para levar pela mão o espectador em sua história.

História essa que, ao menos, cativa o público por conta do imenso carisma de seu protagonista. No caso, trata-se de Osvaldo Pereira, o primeiro DJ do Brasil e precursor das vitrolas e das trocas de discos de vinil nos bailes dos anos 1950 e 1960. Substituindo as grandes orquestras que, até então, eram contratadas para animar os bailes e, por consequência, carecendo de um grande investimento por parte dos organizadores, 

Seu Osvaldo, como era conhecido, revolucionou o negócio dos bailes. Sendo apenas ele à frente do som e um grupo pequeno de pessoas na organização das festas, o ramo se tornou rentável, uma vez que o retorno financeiro era bem maior sem a necessidade de se bancar grandes grupos de músicos profissionais. Daí a ideia de chamar o que Seu Osvaldo oferecia de “Orquestra Invisível”, uma vez que, ele sozinho, junto a uma vasta coleção de vinis, era responsável pela animação de diversas festas.

Seu Osvaldo, o primeiro DJ do Brasil
É neste ponto que o documentário dirigido por Alice Riff acerta, quando a influência musical é colocada em evidência ao se abordar o tipo de som que Seu Osvaldo tocava à época. Exibindo uma invejável coleção de vinis, que vão desde um Ray Conniff ainda sem a característica principal dos cabelos grisalhos à marca registrada dos bailes do período com Glenn Miller inserindo o clima, o curta utiliza bem a fala de Seu Osvaldo para relembrar o período da forma como deve ser feito: com as influências musicais que o definiram como um precursor dos bailes blacks e do funk que, para usar uma gíria do período, se tornariam uma “coqueluche” cultural.

Tributo a uma figura que merece o registro para a posteridade não somente pela sua importância histórica, mas pelo carisma tão contagiante quanto seu som.

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Antonieta (Santa Catarina, 2015, 15min) Direção: Flávia Person.

Antonieta é um filme de ritmo eficiente que, mesmo centrado em uma constante narração em off, consegue, com o importante suporte imagens de arquivo, captar muito bem a atenção do espectador.  Através de breves e concisos quinze minutos, o curta narra a intensa vida de Antonieta de Barros, a primeira mulher negra a se tornar parlamentar no Brasil.

Filha de uma ex-escrava, Antonieta tem em sua trajetória no estado de Santa Catarina do começo do século passado, um exemplo de resistência e do necessário pensamento à frente do seu próprio tempo. Em sua história, a paixão pelo magistério a leva a adotar a vocação de modo exclusivo, não sobrando espaço em sua vida para casamento ou filhos. Um sacerdócio, como insere a narração.

Antonieta de Barros
Trata-se de um curta que prima por uma precisa pesquisa do seu tema de estudo. Que delineia, sem a necessidade floreios, a vida de sua personagem de modo conciso, trazendo para o espectador o peso exato da importância de Antonieta de Barros para o tempo em que viveu, no qual despertou o respeito disfarçado oriundo das influentes famílias brancas e racistas (suas classes eram disputadas por todos os representantes da elite catarinense que queriam os filhos como alunos de Antonieta) e se firmou na luta pelos direitos das professoras quando fundou a Liga dos Magistérios. No absurdo pensamento da época, as professoras não podiam se casar ou ter filhos, pelo fato de que essa condição poderia levar as crianças a indagá-las sobre sua sexualidade e vida afetiva.

Ao utilizar imagens oriundas das primeiras décadas do século XX para ilustrar a narração explicativa da vida de sua personagem, a montagem do curta demonstra sagacidade, como, por exemplo, no momento em que traz a opinião de Antonieta acerca da necessidade obrigatória do saber como sendo uma arma. “Só vive no sentido humano da palavra o que pensa. Os outros se movem, tão somente”, insere a voz over. E a exatidão do momento coincide com imagens de bovinos sendo levados à frente pela violência de boiadeiros. Uma clara alusão à vida de gado que apenas o conhecimento poderia evitar.

Antonieta em meio aos colegas de parlamento no começo do século XX
Personagem de tema riquíssimo, traz para a obra a importância de se enxergar a nossa identidade de Brasil. Alguém que lutou desde o começo para se destacar e fugir das amarras que a manteriam confinada ao detalhe da cor de sua pele ou ao seu gênero. Luta pela emancipação feminina no intuito de escapar das amarras do pensamento retrógrado. Nesse ínterim, se torna cronista de jornal, assinando a coluna “Farrapos de Ideias” sob o pseudônimo de Maria da Ilha e batendo de frente com declarações pejorativas e racistas acerca de seus escritos. “Intriga barata de senzala”, carimba um historiador da época.

Na réplica, já se encontrando exonerada da escola onde lecionava pelas forças sombrias e racistas do período do Estado Novo, Antonieta demonstra sua elegância e orgulho pela sua luta ao afirmar que “não houve intriga barata, nem cara. As considerações foram ditadas pelo coração de uma negra brasileira que se orgulha de sê-lo e que nunca se pintou de outra cor.” Na força de seu discurso, a sensatez que apenas os detentores da razão possuem.

Uma pena que a diabetes a tenha levado com apenas 51 anos. Imaginar o que Antonieta teria feito em mais trinta anos é algo por demais desafiador e reconfortante.

Ao conhecer sua vida, fica a certeza de que, contra os hipócritas e racistas, a pena é mais forte que a espada.

Mas a arma afiada não pode ser descartada, friso.

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Abigail (Rio de Janeiro, 2016, 17min) Direção: Valentina Homem e Isabel Penoni


Existe uma ambientação quase de cinema de gênero no inicio do curta dirigido por Valentina Homem e Isabel Penoni. Trata-se de um filme extremamente sensorial.

Desde seu convidativo plano sequência de abertura, quando somos levados a conhecer os cômodos da casa da personagem-título, com as camadas dos seus objetos pessoais expostos a desenhar sua personalidade para o espectador que não a conhece, até o momento chave daquela introdução, quando o filme interrompe o silêncio gritante (e, até então, imperceptível) para inserir um intenso som metálico, um assustado latido e a aparição de uma representação do candomblé a tomar toda a nossa atenção e nos tirar daquele quase transe de imersão onde nos encontrávamos. A energia da cena é palpável.

Abigail traz uma forma de apresentação de sua personagem que foge de clichês descritivos convencionais. Mesmo em sua narração em off, não se percebe uma necessidade explicita de descrever a vida de Abigail Lopes, indianista e esposa de Francisco Meireles, um sertanista que, ao lado dela, lutou pelos direitos dos nativos. A voz, entretanto, nos convida a adentrar naquele contexto. E, somado ao modo aconchegante como passeamos por aqueles recintos, acabamos por nos sentir à vontade ali e ainda mais curiosos por conhecer a trajetória daquela senhora que, já na fase final de sua vida, em uma fala marcante captada pelas diretoras, se considera teimosa como justificativa ao fato de possuir suas coisas.

Momento de entrega e de união de suas duas missões
De fato, é algo não tão simplório quanto teimosia o que explica tudo que o que ela conquistou, não somente em relação às posses materiais, obviamente, mas em termos sociais na aproximação com os indos e na defesa pela sua causa. É resignação. Neste processo, foi responsável pela pacificação dos Xavantes, algo que o filme levanta como um fato do qual ela se arrepende por considerar que eles tiveram acesso ao que não presta ao lado dos brancos.

Ao abraçar o candomblé e uni-lo à cultura indígena que já havia absorvido, Abigail encontra um equilíbrio denotado no momento em que comenta acerca do Obaluaê, um dos símbolos dessa cultura, que pertencia ao seu filho, Apoena Meireles, assassinado em 2004. “A gente não pode ter medo de nada”, diz a senhora enquanto parece confortar uma das diretoras presentes. Um pedido de benção demonstra a admiração pela mulher em estudo.

Na mescla de cumplicidade com sua protagonista, o filme cumpre um papel ainda mais importante que o de registrar a vida e luta de Abigail Lopes. O de cultivar o respeito por aquela cuja trajetória fez a diferença para todo um povo e que, no final de seus dias, encontra o conforto no exílio particular de seu próprio mundo, representado pela presença física que aquele lar, o segundo personagem do filme, denota.

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Retrato de Carmem D. (Rio de Janeiro, 2015, 21min) Direção: Isabel Joffilly.



Em outra obra da nona Mostra Competitiva em que se observa uma relação intima do espaço físico com o estudo de seus personagens, Retrato de Carmem D. possui uma carga dramática mais pesada e, por conta da interação entre suas duas figuras centrais, o resultado acaba sendo de uma intensidade palpável.
Carmem Dametto, conhecida psiquiatra residente do Rio de Janeiro, atende seus pacientes em casa, um imóvel situado em local de perceptível silencio e de calma bucólica. No entanto, o lugar esconde certo desequilíbrio emocional. E o filme de Isabel Joffily ressalta justamente esse fato ao confrontar as diferenças entre a profissional e sua filha, Marcela, jovem cujos traumas de ter vivido sob a criação pragmática da mãe afloram de forma marcante em seus depoimentos.

Entre lágrimas, a vemos falar acerca do modo como Carmem não demonstrava uma cumplicidade de mãe quando as dúvidas comuns à infância surgiam, afirmando-se não como uma amiga ou como uma psiquiatra para a filha, mas apenas como mãe, posição que, para ela, não apresentava os atributos ou obrigações que a filha afirmava.

As dores de uma trajetória vindo à tona e sendo confrontadas
É um filme que se equilibra muito bem sob as a discussões das duas mulheres. Discussões essas que podem surgir de pontos tanto graves, quanto ínfimos, como vemos todo um enérgico argumento que revisita declarações duras do passado, como quando a jovem afirma ter sido chamada de filha da puta pela própria mãe quando ainda era criança. E isso acontece a partir de uma simples conversa acerca da opção de dar ou não leite para os gatos da casa.

Em tons de voz sempre altos, ambas parecem estar a todo momento sob o fio da navalha para iniciar uma briga. Porém, há uma cumplicidade notável entre as duas. Chamados de “mãe” ou de “Marcela” demonstram isso. As rememorações do passado, sobre festas infantis feitas com pacientes presentes que hoje causam risos ou o suporte demonstrado pela jovem ao falar do caso onde a mãe foi acusada de assassinato quando um paciente morreu em sua clinica no final dos anos 1980 (caso já encerrado e Carmem sendo inocentada), também exibem tais laços entre as duas.

A piscina a representar de modo perfeito o cuidado que aquela relação pede
E a casa, em toda sua grandeza, com os objetos da rotina a compor o ambiente doméstico, sem nenhum tipo de “bagunça cênica” inserida pelo filme, serve como um local perfeito para demonstrar o equilíbrio entre ambas. Em um momento simbólico, vemos Marcela dentro da agora abandonada e vazia piscina que, repleta de lodo, carece de uma reforma para voltar a aparentar o que é. Lá de dentro, a vemos acariciar os cachorros na borda e comentar sobre se lembrar da mãe bronzeada e defini-la como “briguentinha”, por conta de sua impaciência em responder as perguntas de criança. É um take que mostra a beleza de um lugar que carece apenas de atenção.

Rima muito bem com a necessidade da relação entre mãe e filha.


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva VIII


Entretempos (Ceará, 2015, 7min) Direção: Yuri Firmeza e Fred Benevides.

Tema essencialmente presente entre as obras selecionadas para as mostras competitivas do Cachoeria Doc, Entretempos aborda as transformações de cidades não somente pelo seu viés geográfico e urbanista, mas pelo cunho social e, de forma traumática, excludente no quesito étnico.

Através de colagens de imagens que desenham um panorama de construções e demolições em bairros populares do Rio antigo, mais propriamente a região conhecida como Pedra do Sal ou “pequena África”, nos arredores da Praça Mauá, o filme de Yuri Firmeza e Fred Benevides apresenta uma marcante crítica ao modo como a exclusão racial se encontra tão escancarada na pretensa ideia de “modernização” dos locais comuns a todos.

Nas animações publicitárias de empreendimentos imobiliários, juntamente com a inserção das figuras brancas como um modo a demarcação territorial, uma chocante observação do modo selvagem como a gentrificação de áreas completas de uma cidade pode acontecer tão às claras.

Em seu título, Entretempos propõe esse intervalo, algo que, em um mundo ideal, significaria uma evolução. No entanto, a repetição das mesmas práticas do período colonial se observa apenas como uma roupagem disfarçada, mas tão óbvio quanto o que é evidenciado pelas imagens dos documentos comprovadores de negociações por escravos.

Embranquecimento e gentrificação de uma cidade

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SemTítulo #2 – La Mer Larme (São Paulo, 2015, 31min) Direção: Carlos Adriano.

Em Sem Título #1: Dance  of Leitfossil, o cineasta Carlos Adriano apresentou, em pouco mais de cinco minutos, uma belíssima homenagem a Bernardo Vorobow, seu companheiro de longa data, parceiro na direção de diversos trabalhos e experiente programador que esteve, por quase 40 anos (de 1970 até sua morte, em 2009), à frente de diversos centros de programação cinematográfica, como o Museu da Imagem e Som.

Conhecido como o “Sr. Cinemateca do Brasil”, Vorobow tem sua imagem inserida à bela justaposição da dança de Fred Astaire e Ginger Rogers com a música Desfado, interpretada pela cantora portuguesa Ana Moura. Trata-se uma obra cujo ritmo enérgico, somado ao casamento perfeito entre imagem e som, cativa o espectador de forma acachapante, tornando impossível que um sorriso não se faça presente do começo ao fim de sua breve projeção.

A cumplicidade observada em um frame 
Na sua continuação SemTítulo #2 – La Mer Larme, Adriano dá uma vazão ainda maior à homenagem que continua a merecer Vorobow por sua trajetória no cinema nacional. Aqui, a escolha musical fica por conta da canção francesa La Mer, de Charles Trenet, interpretada por ele e por uma grande variedade de artistas. Nas imagens, observamos dois homens a conversar em um convés, no qual violência da maré e dos ventos os leva a compartilhar uma cumplicidade em comum. Cumplicidade essa que faz referências à forma escolhida pelo diretor a homenagear Vorobow, cujas imagens são, assim como em seu antecessor, novamente inseridas juntamente com registros de um cateterismo, em uma clara alusão às complicações cardíacas que o levaram.

Nas imagens, uma estendida justaposição das cenas já citadas e de colagens de obras seminais dos primórdios do cinema. Uma diferente experimentação, com união de imagens e repetição constante de seu tema musical, algo que pode até causar estranhamento no público desavisado por conta de sua duração e experimentalismos, mas que, da mesma forma que em sua primeira parte, leva o espectador a perceber e se comover diante de um teor saudoso e um modo particular e idiossincrático de se observar o luto.

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Filme de Aborto (São Paulo, 2015, 63min) Direção: Lincoln Péricles.

Há em Filme de Aborto, do diretor Lincoln Péricles, uma análise pertinente do modo como subempregos (no caso, telemarketing) são capazes de destruir auto-estimas e causar depressões. Neste aspecto, o filme funciona por tocar em um assunto delicado, algo já notório e que afeta muitas pessoas. Nesta proposta, ao trazer o tema para uma dramatização, o longa acerta por evidenciar algo que merece atenção. Mas, como seu título já diz, outro ponto é verificado.

Trata-se de uma obra inventiva, que aborda a questão do direito feminino ao aborto de maneira a alfinetar uma sociedade paternalista e machista na qual as mulheres não possuem os mesmos direitos e conivências. Somando-se ao drama imposto pela necessidade empregatícia, o filme acaba mirando e desenvolvendo não exclusivamente um único aspecto que aflige seus personagens, o que gera um problema no foco que o trabalho possui. A escolha não chega a prejudicar o resultado, mas o modo como isso é executado, sim. Principalmente quando o filme opta por inserções de imagens (vide a sequência com o vagabundo de Chaplin) que servem apenas para causar uma quebra em sua narrativa, mas que não alcançam qualquer intento.


Desconsiderando isso, é interessante focar nos pontos de acerto de Péricles. O mais óbvio reside na inversão irônica de um casal que deseja ter filhos, mas, no contexto, quem engravida é o homem. O aborto, nesse caso, é legal, uma vez que não é realizado pela mulher. Neste aspecto, o filme traz boas reflexões e causa até bons momentos em sua acidez, como quando vemos dois “grávidos” conversarem enquanto esperam o atendimento na clínica onde será feito o procedimento, algo que remete às esquetes surreais propostas pelo grupo britânico de humor, Monty Python. 

Inversão dos papéis e a reflexão dura através da ironia do humor

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva VII



Nunca é Noite no Mapa (Pernambuco, 2016, 6min) Direção: Ernesto de Carvalho.

Vencedor do prêmio de Melhor Curta Metragem da edição 2016 do Cachoeira Doc, Nunca é Noite no Mapa apresenta uma ideia simples, mas de uma sagacidade impar. Trata-se do tipo de filme cujo tema central e modo de execução rimam em um pertinente uníssono e cuja denúncia contida em seu conteúdo reverbera de forma ainda mais evidente por conta dessa mesma forma de execução.

A partir de visitas ao google mapas espaçadas por intervalos de tempo, o diretor Ernesto de Carvalho avalia as imposições arbitrárias realizadas em Recife durante o período que antecedeu a Copa do Mundo, registrando as mudanças que ocorreram na região, com a derrubada de casas para a passagem de novas avenidas.

O diretor se insere em seu experimento se tornando objeto de observação
Ao se colocar como elemento dentro do seu filme, o narrador/diretor observa as mudanças ao seu redor como um dos elementos diretamente afetados por aquelas ações agressivas. Não que ele já não cumprisse esse papel, uma vez que vive dentro daquela realidade. Mas, ao se propor analisar os objetos dispostos dentro do mapa do mesmo modo como eles são classificados por aquele olhar digital e desumano, o narrador acaba por trazer uma nova perspectiva, tornando o mapa a sua realidade e mantendo-se ali, inserido até o fim, como sendo apenas isso: um objeto a ser apenas exposto sob a visão de uma máquina.  

Assim, as camadas daquele universo vão sendo sobrepostas uma após a outra, trazendo à tona a forma selvagem com aquelas mudanças são impostas. Em seu título, um congelar do tempo é proposto pelo filme. Nesse ínterim, pessoas são descartadas dentro de um universo virtual.

Algo que reverbera e reflete de modo brutal na realidade que serviu como modelo fotográfico para aquele registro atemporal.

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Fort Acquario (Ceará, 2016, 7min) Direção: Pedro Diógenes.

Das formas mais eficientes de se denunciar o abusivo poder dos mais abastados sobre uma população que os sustenta, a tática de se usar seu próprio discurso contra o opressor é uma das que melhor funciona.

Em Fort Acquario, o diretor Pedro Diógenes consegue essa proeza de modo bastante eficiente. Ao utilizar a oportunista fala de um arquiteto ao expressar-se sobre todos os supostos benefícios que a construção de um aquário de visitação pública trará à praia de Iracema, em Fortaleza, Diógenes contrasta toda a argumentação ensaiada do homem com fotos da utilização da praia de modo democrático e acessível a todos. Da forma como deve ser.

A observação do uso do espaço público como ele deve ser: sem apropriações
Nesse intento, as imagens de pessoas a caminhar pelo calçadão com os tapumes da obra a destoar da paisagem e as palavras do arquiteto a afirmar que aquela será uma revitalização que trará de volta ao lugar as famílias que lá merecem frequentar, servem justamente como um resposta das mais eficientes àquela forma baixa de se vender uma ideia.

Na opressão imposta pela classe dominadora que insiste em se apropriar dos espaços comuns em nome de uma suposta segurança geral, o filme ainda acerta em cheio ao usar a voz daquela que, até então, era um dos símbolos de rede Globo, talvez a maior aliciadora de intelectos e manipuladora de fatos em detrimento de interesses escusos como os que estavam por trás daquela construção em Fortaleza.


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Dia de Pagamento (Pernambuco, 2015, 28min) Direção Fabiana Moraes.

Como um filme de personagens que se encadeiam a partir da narração em off que guia o espectador por duras trajetórias de vida,  Dia de Pagamento funciona através de um registro do modo como um suposto progresso muda a vida de gente simples. Nem sempre para melhor, friso. Na estrutura de seu documentário, a cineasta Fabiana Moraes insere a encenação de situações que ajudam a compor a mise en scène do filme e colaboram com uma quebra do que correria o risco de se tornar uma estrutura documental clichê.

Não é o caso aqui. Nas apresentações de seus personagens, a diretora traz suas histórias e rotinas de modo a familiarizar o espectador com aquela realidade. A de pessoas como a dona de casa e mãe de três filhos, que trabalha por pouco mais de mil reais e têm nessa quantia a perspectiva de um mês inteiro. Que precisa pagar em dez prestações quatro cadeiras plásticas, mas que consegue observar o mundo ao redor de sua casa pequena e perceber que ao menos aquilo lhe pertence. Na pequena habitação adquirida, ela consegue se sentar à porta e observar aquilo como sendo seu.

O registro das mudanças em nome do suposto progresso
A representação do progresso em questão é a transposição do Rio São Francisco, obra que altera rotinas e difere paisagens. Nessa mutação de toda uma região, as mudanças podem ser traumáticas justamente pelo modo temporário e fugaz com que seus benefícios se apresentam. Um exemplo disso está no enquadramento que conta a história do dono do bar que faturava cinco mil reais por mês no auge do movimento de operários, mas que, agora, tem sua renda mensal restrita a quinhentos reais.

É um filme humano em sua essência. Por mais simplória que essa definição possa parecer, ela tem sua eficiência na forma como a diretora Fabiana Moraes consegue captar uma face única de seus entrevistados. Seja no gracioso momento em que ensina uma senhora a linha que ela terá que proferir (sendo necessárias diversas repetições) ou na triste abordagem de outra moradora idosa que conta a experiência de perder seu jumento para uma pedrada oriunda de uma explosão planejada (isso sem contar o fato de que a indenização que lhe ofereceram foi de dez reais). É nestes encontros que a obra se constrói e encontra seus melhores resultados.

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Aracati (Rio de Janeiro e Ceará, 2015, 62min) Direção: Aline Portugal e Julia de Simone.


É curioso o fascínio gerado pelo média metragem Aracati,dirigido pelas professoras de roteiro Aline Portugal e Julia de Simone. Trata-se de um filme extremamente sensorial, um literal estudo do vento que leva o nome título do filme e que tem como sua característica mais marcante o fato de que sopra no mesmo horário diariamente, levando movimento a várias turbinas geradoras de energia eólica no estado do Ceará e a certeza de uma rotina infalível aos moradores da região.

A partir de um inicio que segue uma estrutura formalista, exibindo o local de manufatura dos gigantescos moinhos de vento que adentram o estado, o filme gradativamente caminha para uma abordagem humana, exibindo as transformações dos lugares e o modo como as mesmas afetam os habitantes ao redor. Nisso, alagamentos de cidades para criação de represas apagam não somente as estruturas físicas dos locais, mas, também, o emocional de seus cidadãos.

O progresso e contraste de paisagens
Nessa certeza de mudança constante, as pessoas ao seu redor tendem a se tornar meros observadores de toda aquela mutação. E a partir da presença da câmera da dupla de cineastas, um novo contexto é percebido na vida daqueles cidadãos. Um deles caminha pelo lugar onde antes havia uma cidade, mas que, agora, apenas ruínas de um alagamento permanecem. Em um tom de nostalgia, o vemos comentar que aquela foi a primeira casa da rua. Ele caminha pelos “cômodos”, observa uma mala esquecida na areia que cerca o local. É de sua vida que estamos falando. É da sua estrutura de vida que lhe foi retirada em nome de algo que supostamente se chamaria progresso. O progresso físico das coisas. Aquele que suplanta o emocional e sentimental de outras.

Aracati é um filme que trata desse tom passageiro, dessa mensagem que aborda o transitório. Que usa a metáfora do vento a cruzar a região de modo a salientar justamente essa ideia de mudança que, de forma contraditória, se torna algo indelével, uma vez suas alterações são definitivas.


No som oriundo do soprar constante do Aracati é que está uma das poucas coisas imutáveis na vida dos habitantes daquela região. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Bruxa de Blair

(Blair Witch, EUA, 2016) Direção: Adam Wigard. Com James Allen McCune, Callie Hernandez, Corbin Reid, Brandon Scott, Wes Robinson, Valorie Curry.


Por João Paulo Barreto

Creio até que demorou tempo demais para que o fenômeno de 1999, The Blair Witch Project, filme de terror em formato documental dirigido por Daniel Myrick e Eduardo Sanches sob o troco de orçamento que é a bagatela de 60 mil dólares trazer um retorno mundial de quase 250 milhões de dólares.

Sim, foram 17 anos de diferença entre aquele filme e uma continuação realizada nos mesmos moldes (Bruxa de Blair 2 – O Livro das Sombras, lançado em 2000 e sem as características do original não conta). De lá para cá, uma revolução digital aconteceu. O Big Brother se tornou um dos mais populares programas de TV. Realmente, a demora surpreende. Aqui, novas e menores câmeras digitais; equipamentos de captação minúsculos que podem ser usados como bluetooths no ouvido; drones; GPS; google maps; internet 3G, enfim, tudo o que poderia ser possível de ser utilizado no intuito de não permitir que um grupo de jovens se perdesse em uma flores foi utilizado. Mas, ainda assim, eles se perderam.

Mas, enfim, Bruxa de Blair (em uma feliz utilização de um nome mais clean para diferenciá-lo do original) até que funciona ao emular as principais características de seu antecessor do século passado e, pelo menos, poupa o espectador de overdoses de câmeras trêmulas, uma vez que o seu original ficou notório por levar muitos espectadores a sentir enjôos por conta do excesso de imagens tremidas e rápidas, algo que se repetiu em filmes como Voo 93 e Jason Bourne, ambos de Paul Greengrass.

"Não entre após o anoitecer": mas será que alguém segue conselhos?
Na continuação, o irmão da jovem Heather, protagonista do primeiro filme, resolve investigar o seu desaparecimento após um suposto vídeo da casa onde ela teria sido vista pela última vez surgir no youtube. Munido de todo o equipamento citado acima e da companhia de mais três amigos, além do casal de guias responsável pela publicação do vídeo on line, ele resolve adentrar na floresta de Black Hills, em Maryland.

Curiosamente, um dos atrativos do filme está na observação do espectador para com os truques de montagem e registro utilizados pelo diretor Adam Wingard, cuja carreira é dominada apenas por filmes de terror. É interessante notar como os cortes das imagens seguem precisamente uma captação subjetiva, utilizando somente as câmeras inseridas naquele universo. Apesar de em alguns momentos se notar certos ajustes no enquadramento que difere da posição onde se encontram os personagens (nada que não seja perdoável), o filme consegue se manter fiel a esse seu artifício durante toda sua breve hora e meia.  

No entanto, o som diegético da obra incomoda em certos aspectos justamente por quebrar essa ideia de imersão. Em certos momentos, ao se virar para a câmera de alguém que o chama, certos personagens geram um susto no espectador, algo que é acompanhado de um som que, de modo deslocado, chama a atenção do seu interlocutor (e do público, friso) para, logo em seguida, ser esquecido. E perceber que isso volta a se repetir outras vezes sem qualquer cerimônia acaba por quebrar essa boa sintonia que o filme possui.

O caos impera, mas o show tem que continuar: vamos filmar!
Outro ponto que é impossível de não se observar está em seu clímax, quando certa personagem, dentro de um momento de puro pânico e horror, se arrasta por um claustrofóbico subterrâneo, em meio a choro, grito e desespero, mas se preocupa em atirar a câmera à frente para captar sua trajetória.

Excetuando esses detalhes, o filme cumpre sua função de causar medo no espectador, principalmente por seus momentos finais, quando descobrimos um pouco mais sobre a tal entidade.

São outros tempo, diferentes daqueles do final dos 1990. O filme, claro, não deve ter o mesmo resultado nas bilheterias, mas, enfim, até que vale a ida ao cinema.

   

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva VI


Procura-se Irenice (São Paulo, 2016, 25min) Direção: Marco Escrivão e Thiago B. Mendonça.

O ano de 2016 trouxe para o Brasil as Olimpíadas. Seria uma excelente oportunidade para o Comitê organizador dos jogos fazer justiça à figura de Irenice Rodrigues, a corredora recordista que representaria o Brasil no evento que, em 1968, foi realizado no México. Infelizmente, a “atleta apagada” da história continuaria com essa alcunha se não fosse pelo obrigatório curta documentário dirigido por Marco Escrivão e Thiago B. Mendonça.

À frente do seu tempo por conta de suas opiniões decididas e postura de não se rebaixar diante do autoritarismo dos militares, Irenice é trazida de volta à vida através dos depoimentos de pessoas que a conheceram à época em que seus recordes na pista de atletismo eram constantes. Além disso, a dupla de diretores insere a performance da bailarina e atriz Kanzelumuka, que simboliza de modo eficaz a presença da atleta, cuja mordaça simbólica é apresentada, aqui, de forma real, e a bandeira para qual ela tanto queria prestar a reverência do alto de um pódio, acaba sendo a mesma que a amarra, a impedindo de correr.


Vitima de um racismo escancarado no período em que treinava, sendo diversas vezes questionada acerca de sua presença nos locais como alguém que, ao invés de reconhecida como uma atleta vencedora, seria empregada doméstica de alguma família abastada que estaria presente, Irenice era uma vitima de seu país, um Brasil que naufragava diante de um poderio covarde e autoritário, ao invés de preservar seus ícones mais representativos.

“As pessoas só atiram pedra na árvore que dá fruto”, afirma uma das fontes entrevistadas, explicando que os argumentos de Irenice acerca do cenário de influência maléfica do militarismo no esporte e sobre o modo vexatório como ela era tratada no seu meio, dentre outros pontos pertinentemente levantados, eram argumentos válidos, que, em caso de reverberações, daria, sim, frutos. Então, o apedrejamento oriundo dos poderosos não tardou.

A mordaça e a bandeira que se tornaram sua prisão
“A história da Irenice é uma história de uma punição. É a história de uma segregação. De uma exclusão. É a história de um apagamento”, frisa uma das fontes na fala que fecha de modo marcante a obra.

A definição perfeita de uma saga que merecia esse registro trazido à tona no documentário.

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(A Noite Escura da Alma, Bahia, 2015, 85min) Direção: Henrique Dantas.

Abordando de forma precursora a história da ditadura militar na Bahia, A Noite Escura da Alma, de Henrique Dantas, é uma obra que, mais do que a reflexão, traz ao espectador, principalmente aos nascidos ou que vivem na Bahia há muito tempo, um sentimento de revolta para com todos os mandos e desmandos que o estado sofreu durante os anos em que viveu sob a sombra do Carlismo.

Reafirmando o fato de que a arte é uma das armas mais poderosas contra a opressão, o diretor Henrique Dantas acerta ao utilizar performances de atores no intuito de denotar a brutalidade dos métodos da ditadura e as ações dos torturadores. E isso sem a necessidade de ser panfletário em seu discurso ou gratuito em suas imagens e no modo como a mensagem é passada à platéia.


“Quando você se propõe a contar uma história da ditadura militar na Bahia, uma história que você não possui uma imagem sequer, uma vez que tudo foi apagado, tudo se torna mais difícil”, explica Henrique. “Você não encontra nada nos arquivos de televisão daqui da Bahia. Só se acha jornais, e, ainda assim, o que se permitia que saísse impresso na ocasião”, complementa o cineasta. Acaba que, A Noite Escura da Alma se torna um filme no qual toda a indignação e ojeriza que ele gera contra os representantes políticos da época surgem não através de fotogramas de arquivo, mas, sim, através de palavras. Em discursos pesados vindo de vozes inicialmente sem rosto e oriundas de pessoas que passaram pelo terror, o longa demonstra sua força. São depoimentos fortes, que constroem a narrativa para o espectador, o fazendo mergulhar nos mesmos porões onde aqueles cidadãos estiveram.

Na presença de personagens como Juca Ferreira, Lucia Murat, Emiliano José, Theodomiro dos Santos, Carlos Sarno, Haroldo Lima, dentre outros, a voz dos que sobreviveram ao terror daquele período ecoa pelas paredes do Forte do Barbalho, local oportunamente escolhido pelo diretor para captar os depoimentos. Era no lugar onde se concentrava a maioria das ações de repressão militar, onde as torturas aconteciam e assassinatos eram cometidos. O peso da captação daquelas entrevistas no Forte acaba por contribuir para a atmosfera do filme, mas, sem necessariamente explorar de modo displicente o emocional das suas fontes.

O silêncio imposto por um poder que controlava tudo 
Fortes em suas palavras, as vozes captadas por Henrique Dantas trazem fatos relevantes para nossa história, como a questão levantada por Theodomiro dos Santos, um dos presos à época e protagonista de uma das mais famosas fugas da penitenciaria Lemos de Brito. Em um dos trechos, Theodomiro aborda a questão da mão pesada do então governador (colocado no posto pelo ditador Emílio Garrastazu Médici) Antonio Carlos Magalhães, cuja perseguição deflagrada a qualquer um contra seu governo era notoriamente violenta e o fato de que boa parte da responsabilidade pela ausência de memórias relacionadas ao período ditatorial na Bahia se deve às ações perpetradas por ele.

Em uma época em que seu herdeiro se esforça para desvincular sua imagem à notória e contumaz truculência que se tornou marca de sua família, esse ponto de abordagem torna A Noite Escura da Alma ainda mais essencial. “Eu me lembro de ter ficado inseguro de inserir tal trecho no filme.”, afirma o diretor Henrique Dantas. “Na ocasião, eu liguei para o Theodomiro e falei: ‘Theodomiro, o filme está pronto. Mas tem uma parada que você fala e que coloca o ACM como assassino. E aí, meu velho?’”, continua Henrique. A resposta de Theodomiro é uma declaração que simboliza não somente sua postura decidida, mas, também, uma resposta contra os anos de silêncio forçado em que vivemos aqui na Bahia. “Ele chegou e disse: ‘Henrique, eu sou que nem índio. O que eu cuspo, eu não boto pra dentro de novo, não’. Eu me lembro que cheguei a me emocionar na ocasião”, recorda-se Dantas.

O diretor Henrique Dantas (Foto:Jackson Romanelli. Divulgação)
Trata-se de uma obra que gera no público uma reflexão urgente acerca do fato de que a Bahia é uma terra vitima da alegria, fato levantado por Dantas na sua narração inserida no começo do filme. Onde os problemas sociais acabam sendo irresponsavelmente escondidos por políticos que usam o carnaval e a alcunha que esse lugar possui como um fator de influência para deixar, por ainda mais tempo, a venda nos olhos de seu povo. Iludido por um suposto estado constante de felicidade (A terra da alegria, como diz a propaganda oficial), esse povo não se permite apurar seu senso crítico, deixando-se levar por uma memória curta ou apagada por interesses mesquinhos.

“Meu filme não tem a pretensão de colocar as pessoas dentro da memória, mas, ao menos, ele as risca, sabe? Como aquela riscada que você faz do seu nome e o de sua namorada em um coração, desenhado no muro de sua casa. É um pouco disso que meu filme faz. Ele pega aquela muro ali no meio do caminho, desenha um coração sangrando e coloca o nome dessas pessoas dentro”, afirma Henrique Dantas.

De fato, esse coração sangrando aqui na Bahia precisava ser trazido à tona, principalmente em um período como o atual. Um filme essencial.
                                                                    

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva V



Orestes (São Paulo, 2015, 93min) Direção: Rodrigo Siqueira.

Filme de suma relevância para um Brasil cujos extremos de sua população se digladiam entre um pensamento que busca compreender a origem da questão da violência e outro que, com olhos injetados e atitude fascista, exige, sem qualquer julgamento, a vida do réu como pagamento pelo seu crime, Orestes, de Rodrigo Siqueira, diretor do crucial Terra Deu, Terra Come, te coloca contra a parede.

Trata-se de uma obra essencial para um momento em que vemos torturadores assumidos subir em um púlpito de um plenário para prestar homenagem a assassinos seriais de um período sombrio da história. A reflexão por trás de Orestes reside justamente nesse contexto, o qual a (auto)análise dos representantes de nossa sociedade que se fazem presentes através de opiniões calcadas no radicalismo e que precisam ser revistas.

Ao se propor adaptar o mito grego de Orestes, personagem de Ésquilo que, na obra, mata a mãe para vingar seu pai e acaba sendo julgado por cidadãos de Atenas, Siqueira cria dois campos de análise. É quando o filme assume duas frentes de reflexão: uma explicita no sentido de se confrontar opiniões dissonantes da sociedade, intento alcançado em sessões de psicodrama nas quais se reúnem pais cujos filhos foram mortos em ações da polícia; ex-presos políticos e torturados na ditadura; a filha de uma militante assassinada no período e uma ferrenha defensora da pena de morte.

A militante pró pena de morte e seus argumentos falhos
A outra frente de reflexão possui um teor mais teatral e de acordo com a alusão literária que possui o título da obra. Aqui, um julgamento simulado e realizado na Faculdade de Direito da USP coloca o personagem de Orestes (aqui, acusado de matar o pai por conta do assassinato da mãe, uma militante contra a ditadura) como réu a ser julgado pela grande platéia presente, no qual os pertinentes discursos de um advogado de defesa e um promotor adéquam a história à realidade que se vê no Brasil. Em discursos eloquentes e repletos de profusão, vemos o mito proposto por Ésquilo se tornar uma metáfora ideal para uma das propostas de análise mais contundentes da obra, que é a questão da máxima do olho por olho e que o mais fraco seja esfacelado.

Nos momentos em que são abordadas as pessoas que compõem as sessões de psicodrama, o filme, de fato, demonstra sua força. São personagens repletos de dores, mesmo a representante do radicalismo pela pena de morte, alguém cuja máscara do pragmatismo não tarda a cair diante dos fatos que lhe são apresentados pelos outros presentes. No entanto, é na figura de Ñasaindy Barrett, uma das presentes, filha de Soledad Barrett, militante delatada pelo famigerado cabo Anselmo, e de José Maria, também assassinado pelo regime militar, que o filme encontra seu mais doloroso relato.

O julgamento simulado na Faculdade de Direito da USP
Apresentando suas lembranças embaçadas e construídas mais a partir de fotos do que propriamente de vivências com os pais, Ñasaindy confronta sua dor ao falar do tal delator, cabo Anselmo, que o filme exibe em uma entrevista concedida ao programa Roda Viva e cujo vídeo é exibido a partir de uma busca no youtube. Nas rememorações de Ñasaindy, o filme apresenta os traumas da perda de Soledad, brutalmente assassinada. Em certo momento, durante a sessão de psicodrama, um dos presentes assume o papel de cabo Anselmo, permitindo a Ñasaindy despejar palavras engasgadas. Momento deveras libertador tanto para ela quanto para o espectador.

Orestes acaba por ser um filme essencial não somente por funcionar como resgate da história e denúncia dos crimes de um período, mas por permitir a audiência a encarar e refletir dentro de suas próprias hipocrisias. A principal delas representada pela postura da personagem atuante na defesa da pena de morte, que, defensora de uma política de morte ao bandido a partir de um frágil discurso elitista, tem seus argumentos destituídos de qualquer moral a partir dos diálogos travados de modo enérgico com os presentes às sessões.

Em um grupo de pessoas no qual se encontram vitimas, além de pais e mães de outras vitimas, a força vista naqueles indivíduos para expressar suas contundentes e imprescindíveis opiniões contra o fascismo declarado de uma das presentes é a mesma força que a obra de Rodrigo Siqueira possui.

Força essa que nos empurra contra a cadeira durante seus breves 90 minutos, mas que nos sacoleja ao final para levantar e lutar com ainda mais ênfase contra esse regime opressivo que parece estar querendo voltar.

Mas não conseguirá. Não, mesmo!



Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva IV


Índios no Poder (Distrito Federal, 2015, 21min) Direção: Rodrigo Arajeju.

Representando o perfil de engajamento e relação com o presente momento de exclusão democrática  e política pelo qual passa o país, é pertinente que um curta como Índios no Poder seja exibido na quarta mostra competitiva do Cachoeira Doc 2015.

Abordando o fato de que o perfil dominante do plenário da câmara em Brasília é composto por pessoas brancas, pardos e negros, sem a presença de nenhum indígena a representar os interesses dos povos nativos do Brasil, o documentário traz posicionamentos contundentes acerca da perseguição executada por ruralistas e outros membros que compartilham dos interesses agrários dessa bancada, dentre eles a aprovação da PEC 215.

Polêmica pelo fato de que concede ao congresso o direito de votar sobre os interesses relacionados com a demarcação de terras indígenas, a Proposta de Emenda Constitucional prevê retirar do poder executivo as decisões exclusivas desse mérito, permitindo aos deputados influenciar nas decisões, algo que beneficia os ruralistas em sua totalidade.

O filme tem alguns momentos marcantes, como o que vemos um candidato indígena distribuir de mão em mão seus santinhos e conversa com possíveis eleitores em frente a cartazes de candidatos a presidente, em uma clara alusão ao domínio da máquina eleitoral que beneficia os endinheirados e torna a necessidade de uma reforma política ainda mais urgente. A cena remete a outra marcante, quando em A Cidade é uma Só?, de Adirley Queiroz, vemos o protagonista Dildo caminhar em frente a carreata da então candidata Dilma carregando seus poucos santinhos impressos.

Com imagens de arquivo do falecido deputado Juruna, o primeiro índio a ocupar uma cadeira na câmara, a obra consegue criar um discurso bem pertinente acerca da necessidade de igualar as vozes. Principalmente no atual contexto, no qual a liderança Kaiowa Guarani  é executada e a sanguinolenta e conveniente (para o agronegócio) PEC 215 segue em frente.

Índios e a representação da exclusão no cenário político nacional




Vozerio (Rio de Janeiro, 2015, 98min). Direção: Wladimir Seixas.

Filme de imagens impactantes e discurso poderoso, Vozerio aborda as manifestações ocorridas no período que antecedeu a copa do mundo no Brasil, ocasião em que diversas ocupações em defesa de minorias, que acabaram por ser enxotadas dos seus locais de moradia em nome do progresso e das melhorias relacionadas ao tal “legado” da copa e das olimpíadas.

Com depoimentos de vários membros dos movimentos de protestos, como o cartunista Carlos Latuff, cujo traço é o que melhor representa toda a realidade da opressão vista no Brasil e que teve seus desenhos censurados em algumas ocasiões, além do cineasta Silvio Tendler, que tem uma das melhores participações do filme ao ser indagado acerca de um processo policial que sofreu por convocar, via internet, manifestantes para comparecer em frente a um prédio onde simpatizantes da ditadura se reuniam.

Captação in loco e montagem eficiente dão ao filme uma narrativa frenética
Vozerio é um filme que tem em seu impacto imagético e em sua eficiente montagem seus maiores trunfos. Uma obra cujo discurso de luta contra a opressão é feito de forma tanto brutal, direta e seca, com suas imagens que causam estampidos, quanto de modo reflexivo, mas não menos desconfortável, a partir dos registros das performances de artistas na representação do modo como a dominação de um poder político excludente visava calá-los.

E isso é visto de modo deveras visceral, como quando são apresentadas performances de rua que envolvem corpos nus na sarjeta suja, sufocamento em sacos plásticos ou quando lábios são lacrados com costura para representar a intimidação do Estado através do silêncio forçado.  

Ouvindo diversas fontes a representar uma atuante massa contestadora do atual sistema político, Vozerio tem uma linha narrativa que caminha em direção à catarse de seu inflamável final. Com breves pausas na intensidade de suas cenas, o filme mantém-se, no entanto, em um ritmo enérgico constante, o que causa no espectador um desconforto bem-vindo, algo que o força a encarar aqueles fatos de modo reflexivo. E esse modo forçado é por demais bem-vindo, friso.

Apesar de tropeçar em certos momentos por conta do grande leque de fatos que deseja abordar (como quando deixa de lado os conflitos aqui para uma contextualização comparativa às guerras no oriente médio), o filme não perde seu ritmo, apostando de modo eficiente em seu maior trunfo, que são as imagens in loco. Sendo isso algo que funciona como um registro crucial do que acontecia no caos planejado das ruas e, tão importante quanto, o que acontecia ao redor delas, nas discussões intelectuais acerca dos fatos, nos planejamentos prévios na internet, a grande força diferenciadora contra uma televisão que só manipula.

Um filme de intensidade palpável. 


domingo, 11 de setembro de 2016

Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva III




Taego Ãwa (Goiás, 2015, 75min) Direção: Marcela e Henrique Borela

Dos mais simbólicos filmes da Mostra Competitiva do Cachoeira Doc 2016, Taego Ãwa registra a luta dos índios Avá na demarcação de suas terras e reconhecimento cultural de seu povo como pertencente àquele lugar, no interior de Goiás.

Munidos de imagens dos índios localizadas em velhas fitas VHS encontradas pelos diretores no prédio da Universidade Federal de Goiás, os irmãos Borela decidem por levá-las ao povo indigena no intuito de compartilhar aquelas lembranças com aquelas pessoas, bem como compreender sua luta mais a fundo.

Trata-se de um filme cuja generosidade e apuro na sua confecção denotam muito do respeito dos cineastas para com aquelas pessoas, uma vez que a abordagem inicial com eles é vista apenas como uma apresentação, um reencontro propriamente dito deles com o seu passado registrado nas fitas. Parte desse passado, inclusive, bastante doloroso ao trazer à tona lembranças da invasão armada que aconteceu em 1973, na qual muitos membros da tribo foram assassinados.

A identidade cultural representada por um sorriso
No observar das imagens, percebe-se um tocante reconhecimento. “Esse é o vovô?”, pergunta uma voz juvenil. “Esse é o meu pai”, observa uma senhora indígena enquanto se admira com aquele reencontro. Um dos personagens registrados tanto nas imagens de arquivo quanto no período atual mantêm viva a tradição de pintar os companheiros de tribo com tinta oriunda do jenipapo. Em um símbolo de resistência cultural, os vemos registrar seus costumes, entre sorrisos de reconhecimento, algo que é brilhantemente captado pelos diretores no momento em que o ancião da tribo, Tutal, tira toda a roupa sob o argumento de não ter vergonha de mostrar seu pênis. Daqueles tesouros fílmicos que surgem para os cineastas na hora e momento certos, ainda mais em uma obra que aborda justamente a questão da identidade indígena.


No aspecto de afirmação e reconhecimento cultural, Teago Ãwa exprime um cuidado crucial em seus registros. Trata-se de um trabalho que, apesar de representar um olhar do homem branco sobre o indígena, não possui os defeitos comuns a certo tipo de abordagem predatória. Longe disso. Ao optar por apresentar as imagens de arquivo àquele povo, captar suas reações e a partir disso trazer à tona uma nova narrativa, Marcela e Henrique Borela acertam por suscitar a discussão sem a necessidade panfletária ou sensacionalista, apesar do tema delicado em sua inserção.  Em um filme que aborda um povo chamado de “índios invisíveis” por conta do modo como ele se inseriu a sociedade branca, além do fato de sofrerem duplamente com o racismo por serem chamados de índios negros, o resgate proposto pelo filme acerta em sua premissa provocativa.

Obra essencial em um contexto de resistência tão imprescindível em tempos de cerceamento de liberdades e direitos como os atuais.

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GRIN (São Paulo, 2016, 41min). Direção: Roney Freitas e Isael Maxakali.

Em um dos depoimentos captados pelos diretores Roney Freitas e Isael Maxakali, Totó, um dos índios que fizeram parte da GRIN - Guarda Nacional Indígena, agrupamento militar criado na ditadura, hoje já idoso, relembra o caso do assassinato sádico de um dos seus companheiros. Forçado a beber leite fervente para, em seguida, tomar água fria, o homem não conseguia comer por conta das queimaduras internas, algo que o leva a adoecer e, consequentemente, morrer.

Trata-se do momento de maior impacto em GRIN, documentário que aborda, a partir de depoimentos dos que presenciaram o período, a criação da tal guarda. Projeto que trazia em sua essência a brutalidade insana dos ditadores, representava de modo oficial a postura desumana e desrespeitosa do Estado diante da cultura indígena. Ao descaracterizá-la de seus costumes e hábitos, retirando-a de seu meio e a colocando sob as vestes do militarismo, a GRIN representava a destruição da identidade de um povo, algo que acabava por ser perpetuado para gerações futuras daquelas pessoas, uma vez que muitos dos bebês nascidos à ocasião recebiam nomes dos militares atuantes no período, a exemplo da alcunha de dos algozes do período, capitão Pinheiro.

Com a presença do experiente documentarista Isael Maxakali, representante direto do povo abordado no filme, a captar os depoimentos, o diretor Roney Freitas, através das marcantes entrevistas dos integrantes da tribo, cria uma narrativa fluída, que denuncia a irresponsável e perversa descaracterização daquelas pessoas. Mantidas sob um a rédea da submissão, eram colocadas reféns até mesmo do modo de consumo capitalista que, excludente por natureza, ainda os colocava em patamar mais inferior, uma vez que os militares criaram uma moeda específica para os índios utilizarem na região, algo que os controlava de modo ainda mais pernicioso.

Através dos depoimentos dos mais velhos da tribo, toda a barbárie pode ser presenciada. Desde os métodos de tortura física, até a forma como Pinheiro se dizia dono daquelas pessoas, algo evidenciado de forma curiosa no depoimento de um dos idosos, Rondon. Em suas palavras, um estranho respeito pela figura de Pinheiro surge, afirmando que o homem protegia os Maxakali. Fica a dúvida acerca de uma possível senilidade ou um comportamento de respeito cego pelo seu opressor, seja por razões de um medo institucionalizado ou por algo que, dada às devidas proporções, se aproximaria da síndrome de Estocolmo. 
Uma cena cujo impacto desnorteia principalmente pela percepção de que a tortura e influência psicológica do branco eram por demais pesadas, algo evidenciado pela afirmação final de Rondon, a de que ainda se considera um soldado.

Um filme cuja reflexão se dá de modo doloroso a partir do momento em que se percebe que a identidade de um povo era retirada não somente através da violência mas, por vezes, intelectual.