sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Manchester à Beira-Mar

(Manchester by the Sea, EUA, 2016) Direção: Kenneth Lonergan. Com Casey Affleck, Lucas Hedges, Kyle Chandler, Michelle Williams.


Por João Paulo Barreto  

Em certo momento da trajetória de Lee Chandler (Casey Affleck em papel definidor) durante o percalço de cuidar do funeral de um ente recém falecido, a constatação de que o enterro do irmão só poderá ser feito depois de meses o faz perceber que o prolongamento amargo daquele período de sua vida lhe é inevitável.

“O solo está muito duro. Não é possível cavar nada agora por causa do inverno”, explica ao sobrinho Patrick, cuja fachada dura e insensível diante da morte do próprio pai desmorona em choro desesperado quando a ideia de imaginá-lo dentro de um freezer durante meses encontra paralelo em uma simples olhadela na própria geladeira.

A mesma dureza do solo onde deverá ser colocado o irmão está no coração de Lee, alguém cujo retorno à cidade onde nasceu e cresceu trará ainda mais dor do que a já oriunda da morte de Joe. Reencontrar com seu passado brutal na pequena Manchester, pequena cidade praiana próxima à Boston, nos Estados Unidos, trará mais consequências do que a esperada pelo simples zelador que tenta reconstruir sua vida na metrópole vizinha.

Lee e Patrick em meio ao turbilhão
Capaz de lidar de forma não romantizada ou idealizada com um tema de tamanho impacto emocional quanto o apresentado em Manchester à Beira-Mar, o diretor e roteirista Kenneth Lonergan tem neste primeiro aspecto de análise do longa um ponto de grande acerto. O filme não se entrega ao dramalhão redentor, no qual meter o dedo nas próprias feridas se torna uma forma de buscar a cura das mesmas. Aqui, não existe a ilusão de uma redenção para os erros do passado.

O perdão pode até existir, mas isso não significa que a paz de espírito passará a reinar entre aquelas pessoas. A dor dos erros do passado prevalecerá diante de todas as nuances e a razão acabará por sobrepor qualquer fator emocional na decisão de Lee em seguir ou não o testamento de Joe, que deixou instruções para que a custódia do filho ainda menor de idade fosse transferida para o irmão. Ao não abusar do sentimental na construção de uma relação afetiva entre tio e sobrinho, Lonergan cria uma ambientação calcada em aspectos concretos da realidade, o que pesa substancialmente para o impacto de sua história.

Randi e Lee: Cicatrizes do passado que ainda não se fecharam
Órfão, Patrick esconde sua frustração através de uma rotina adolescente comum, no qual estudo, banda e namorada(s) fazem parte de seu contexto. Em certos momentos, o filme se torna um tanto repetitivo ao insistir nessa abordagem para firmar no espectador o sentimento de fuga do garoto (como, por exemplo, quando vemos uma mesma cena envolvendo um ensaio de banda surgir de modo idêntico duas vezes). No entanto, ao exibir a inaptidão social de Lee dentro desse mesmo ambiente, principalmente ao se notar que a única forma que ele encontra de sentir algo é através da dor alcançada em brigas de bar, torna-se compreensível a razão para tal abordagem.

Quando o solo finalmente se torna um pouco menos rígido para permitir que o cadáver de Joe seja sepultado, o congelamento e a impossibilidade de aproximação que parecia permanente diante de Lee não deixa de existir, mas a percepção de que o homem ainda pode seguir em frente se faz presente.


Áspero, mas preciso. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

La La Land

(EUA, 2016) Direção: Damien Chazelle. Com Ryan Goling, Emma Stone, JK Simmons.


Por João Paulo Barreto

Existe em La La Land uma direcionamento diferente da energia vista no longa anterior do diretor Damien Chazelle. Não que isso seja um problema, de fato. Afinal, os cortes rápidos da montagem de Tom Cross, agraciado merecidamente com o Oscar pelo trabalho em Whiplash, demonstram-se mais contidos nesse revisitar dos grandes clássicos musicais de Hollywood.

Essa mudança de tom se faz presente no modo mais fluído e menos seco (estilo imprescindível para o impacto do longa de 2014) com que a narrativa de La La Land nos é apresentada. Um sinal curioso de que Chazelle, que tem apenas 32 anos, começa a amadurecer de modo louvável em seu modo de direção.

Na história simples, dois aspirantes ao sucesso se apaixonam durante os percalços para provar seus talentos e se estabelecerem naquilo que realmente amam. Ela, uma atriz que ganha a vida como balconista e que tenta encaixar na sua rotina diversos testes para papéis (o fato de trabalhar no Café dentro dos estúdios da Warner ajuda na logística). Ele, um pianista de talento e jazzista de alma e que toca em bares durante o período de Natal, mas vê sua genialidade castrada pela necessidade de tocar exclusivamente músicas comerciais. Ambiciona abrir o próprio bar voltado para o jazz, mas precisará revisitar outros estilos para pagar as contas.

Sebastian: talento desperdiçado, mas ambição posta como meta
Trata-se de uma obra ingênua, mas cativante. Ryan Gosling cantando e sapateando, claro, não se aproxima de Fred Astaire ou a Gene Kelly, mas, enfim, seria pedir demais para inexpressivo ator alcançar tal patamar. No entanto, essa já notável inexpressividade não se torna um demérito. Em sua tristeza comedida diante de tantas frustrações, Gosling traz para seu Sebastian o tom certo para representar as tentativas e erros que os percalços lhe apresentam. Já bastante conhecido pelo apurado timing cômico (vide Dois Caras Legais), aqui, algumas tiradas remetem bem ao modo de atuação do filme de Shane Black.

Em Mia, Emma Stone, com seus (lindos) olhos gigantescos a dominar toda a tela do cinema, representa bem essa ilusória ambição do estrelato que invade diversas jovens a tentar uma carreira em Los Angeles. Ainda bem que o filme não aborda o mal que a cidade e seus predadores podem fazer a esse tipo de ingenuidade. Entre testes e mais testes nos quais nada progride em sua carreira, uma introspecção a faz caminhar pela cidade até se deparar com o clube onde Sebastian arrisca uma última cartada na intenção de quebrar o protocolo imposto pelo dono do lugar que insiste que ele toque apenas medalhões de natal (J.K. Simmons honrando o presente que foi Whiplash para sua carreira).

Los Angeles clássica com toques modernos
No encontro dos dois, a primeira brincadeira do roteiro de Chazelle, no qual o tal idealizado romance é frustrado logo de cara. Talvez um pressagio para o final adequadamente real que o filme apresenta para aquele relacionamento, que utiliza uma Hollywood atual, mas que, sem os telefones modernos e os carros contemporâneos , poderia muito bem ser a mesma  da era de ouro, onde os mesmos musicais repletos de sapateados, cores (algo que as paletas das roupas representam muito bem), falas cantadas e ilusões de amores idealizados perpetravam diversas obras.

Essa modernidade é representada de modo curioso pelo jazz que perpassa pela fantástica trilha sonora. 
Encarado de modo nostálgico pelo personagem de Gosling, alguém que guarda como um troféu um banco onde teria sentado seu herói Hoagy Carmichael. Alguém para quem o estilo é tratado com total preciosismo, mas cujo choque da realidade financeira e do argumento do band leader a lhe oferecer um emprego (o músico John Legend, em eficiente e irônica participação) lhe faz ter segundas opiniões. “Como você vai ser um revolucionário comportando-se como um tradicionalista? Você está tão ligado ao passado que se esquece que o jazz representa o futuro.” Doloroso, mas preciso.

Exibindo ao público duas opções de final em seu desfecho, Chazelle mantém o sabor agridoce de sua história, mas garante a seu público um pouco da ingenuidade mágica que os clássicos que ele soube homenagear tão bem trazem em sua essência.

Escolha o seu, mas saiba que o amargo é mais real. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Doutor Estranho

(Doctor Strange, EUA, 2016) Direção: Scott Derrickson. Com Benedict Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Mads Mikkelsen, Tilda Swinton.


Por João Paulo Barreto

Os estúdios Marvel entram, com Doutor Estranho, em uma previamente anunciada nova fase de suas adaptações cinematográficas oriundas do fértil terreno de histórias de quadrinhos pavimentado por Stan Lee, Steve Ditko e outras mentes geniais que criaram um palpável universo de personagens e arcos dramáticos fascinantes.

Aliás, muito da marca vista em todos os longas anteriores do estúdio são reforçadas neste novo exemplar da sua filmografia. O que, claro, não representa propriamente um problema. No entanto, após tanto aprendizado, já teria sido a hora de demonstrarem conhecimento com os próprios erros anteriores no quesito da entrega de personagens de acordo com a antecipação criada.

Não que haja algum problema com a encarnação de Stephen Strange, o brilhante cirurgião na pele de Benedict Cumberbatch, que parece ter nascido para o papel. O problema está na criação de um antagonista à altura de seu herói. Não se trata de Mads Mikkelsen, aqui bastante eficiente no papel de Kaecilius, um dos mestres que previamente foi discípulo da Grande Anciã vivida, também de modo bem convincente, por Tilda Swinton, mas que aderiu ao poder da Dimensão Sombria (erroneamente traduzida no Brasil como Dimensão Negra). Kaecilius deseja invocar o poderoso Dormammu, entidade que domina a tal dimensão, na qual o tempo não existe. E é aqui que o filme decepciona um pouco.

Mads Mikkelsen como o soturno Kaecilius: boa presença
Nesse ínterim, o arrogante, porém indefectível cirurgião Doutor Strange, sofre um grave acidente de carro que o deixa impedido de usar as próprias mãos. Na busca por uma cura, acaba chegando ao templo de Kamar-Tal, em Katmandu, no Nepal, onde, após uma traumática e violenta iniciação forçada pela sua prepotência, convence a Grande Anciã a treiná-lo nas forças ocultas da magia.

Repleto de efeitos especiais que remetem ao longa de Christopher Nolan,  A Origem, (do mesmo modo como suas cenas de luta em cenários giratórios), Doutor Estranho consegue não depender tanto de suas intervenções visuais em CGI e cria um bom desenvolvimento dos laços entre seus personagens, como ao inserir uma relação romântica entre Strange e a sua colega Christine Palmer (McAdams), ou quando utiliza um belo momento de reflexão acerca da relatividade do tempo na cena em que um dos personagens tem uma  morte traumática.

A Grande Anciã mostra onde a arrogância de Strange deve permanecer
Além disso, na inserção do humor, seu roteiro mantém um bom ritmo em piadas que não chegam a se tornar uma marca irônica constante do protagonista, como no Tony Stark de Downey Jr., mas que cria uma boa química entre os personagens (vide o momento em que o nome de Adele e de outros famosos sem sobrenome são citados).

Ao utilizar as supostas dimensões terrenas como gags visuais eficientes, o filme acerta bastante no seu tom entre a ação, o drama e a comédia, usando um mesmo artifício em três saídas diferentes: na já citada postura de um dos personagens diante da morte; nas cenas e luta entre o Strange e um dos aliados de Kaecilius e, no melhor uso do artifício, quando o protagonista conversa com a Dra. Palmer enquanto esta tenta salvar sua vida diante do seu corpo desacordado.

Dra. Palmer (McAdams) conforta Strange após acidente
Em seu final, a percepção de um saldo positivo do filme é inconteste, muito devido ao carisma de Cumberbatch, que, como a comparação anterior já disse, traz um contra peso eficiente ao que já nos habituamos a ver na presença irônica de Robert Downey Jr.

Uma pena que a entrega do tal vilão que ouvimos falar durante todo o filme seja tão decepcionante tanto em sua presença física, quanto no modo pretensamente criativo de se criar um final pegadinha para o espectador e para o próprio vilão, que parece tão surpreso (no lado negativo da palavra) com aquela proposta quanto nós sentados na poltrona do cinema. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A Luz Entre Oceanos

(The Light Between Ocenans, UK-EUA, 2016) Direção: Derek Cianfrance. Michael Fassbender, Alicia Vinkander, Rachel Weisz.


Por João Paulo Barreto

Com A Luz Entre Oceanos, o diretor Derek Cianfrance fecha uma espécie de trilogia acerca do definhar e da adaptação que relacionamentos, sejam familiares ou amorosos, criam em seus desenlaces.

Em My Blue Valentine, esse definhar era particular, intimo a duas pessoas, exibindo uma ferida cuja dor de uma relação desgastada insistia em continuar inflamada e as forças para manter qualquer cura ainda possível era apenas unilateral; em  O Lugar Onde Tudo Termina, o cineasta ampliou essa análise comportamental, trazendo a um leque maior de personagens o preço das consequências de ações perpetradas tanto por eles quanto por outros pertencentes aos mesmos laços.

Aqui, em A Luz Entre Oceanos, ao adaptar um bestseller, Cianfrance opta por uma história já previamente escrita, mas que tem em seus desenlaces e consequências uma mescla do que já foi previamente experimentado pelo roteirista e diretor, que, a exemplo do longa anterior, insere a condição da paz de consciência como algo intrínseco e obrigatório para alguns de seus personagens-chave.

Na história, o veterano da Primeira Guerra, Tom Sherbourne (Fassbender), assume o trabalho de faroleiro na costa australiana. Ideal para curar seus traumas de guerra e alimentar sua postura introvertida, a solitária função de manter o distante farol em funcionamento é cumprida com esmero. Tom, no entanto, se apaixona pela filha de um dos moradores da região, e esse sentimento por Isabel (Vincander) o leva a ceder aos impulsos de iniciar um relacionamento que terminará no casamento de ambos e na mudança de Isabel para a ilhota onde fica o farol sob a responsabilidade de Tom.

Tom e Isabel: o equilíbrio alcançado através de uma paixão
Neste ponto, percebemos o modo como Cianfrance retorna ao tema relacionado com o amor encarado como um meio de cura para traumas e a forma como uma vida pode ser colocada novamente nos eixos e no equilíbrio através do companheirismo enxergado naquela paixão. Isabel, porém, sofre dois abortos espontâneos e o choque da perda transforma a esperança daquela relação em dor e desilusão, modificada apenas com a chegada de um bebê naufrago cujo bote salva vidas, no qual um cadáver acompanha a criança, é levado à ilha pela maré.

Irredutível na ideia de fazer o que julga correto, Tom opta por avisar as autoridades acerca do fato, mas é convencido pela esposa a manter o fato em segredo e comunicar aos familiares que aquela criança é, na verdade, a filha que ambos tiveram na ilha. Trata-se da opção mais correta diante da possibilidade de ver o bebê entregue à aspereza de orfanatos. Ao descobrir, quatro anos depois, que a criança é, na verdade, filha de uma viúva (Weisz) cujo marido alemão, hostilizado por locais devido a sua nacionalidade, fugiu com o bebê para o oceano em um ato irresponsável de impulsividade, Tom se vê atormentado pela culpa por fazer a mulher sofrer pela falta que a filha e o esposo fazem. Do mesmo modo, a decisão a qual se vê diante da necessidade de tomar também tornará aquela mesma dor presente em sua própria esposa.

Rachel Weisz e o luto doloroso da perda de sua família
É quando o filme realmente diz a que veio, trazendo uma análise elaborada da culpa e da busca pela paz de espírito que o Tom anseia possuir novamente. Diante de tamanho horror presenciado pelo homem durante o conflito na França anos antes; diante da culpa que sente por se perceber como o único sobrevivente de todo um pelotão, a paz ansiada por ele no isolamento de seu trabalho e na nova e esperançosa vida que construiu ao lado de Isabel, se perde. Pelo fato de se considerar culpado por conta da perpetuação do sofrimento de mais uma pessoa, dessa vez não um inimigo de guerra, Tom tem em seu conflito interno e na sua relação idiossincrática com a ética uma batalha perdida.

Na opção escolhida pelo homem, as consequências de seus atos não serão deixadas incólumes e o preço a pagar não será taxado apenas a ele. A recompensa, no entanto, como prova o passar dos anos e a forma como o tempo termina por agraciá-lo, o faz perceber ter optado pela escolha certa.

Felicidade familiar balançada pela dor na consciência
Trata-se de uma obra que, ao se basear em uma estrutura romântica, usa (beirando a demasia) de artifícios de narração em off através de cartas, e que possui na atuação de seu trio de protagonistas uma carga dramática pesada, porém necessária, para o teor doloroso de seu desenvolvimento.

No entanto, consegue êxito nesse desenvolvimento, criando com o espectador uma ligação de estima perante seus personagens, cuja busca por felicidade cativa justamente pelo fato de que a mesma não ultrapassa limites que podem ferir ao outro.  


sábado, 22 de outubro de 2016

O Contador

(The Accountant, EUA, 2016) Direção: Gavin O´Connor. Com Ben Affleck, Anna Kendrick, J.K. Simmons, Jon Bernthal.


Por João Paulo Barreto

Notoriamente visto como um ator limitado em suas performances dramáticas, Ben Affleck se revelou um dos melhores diretores de sua geração. Medo da Verdade, Atração Perigosa mostraram uma energia em seu modo de direção que alcançou com Argo, o vencedor do Oscar de melhor filme em 2013, uma maturidade primorosa na criação de thrillers.

No entanto, o galã ainda se arrisca a criar personagens baseados em seu modo soturno de atuação, como vimos no próprio Argo, sob a batuta de David Fincher em Garota Exemplar, e, contrariando muitas previsões pessimistas, acabou se revelando um excelente Batman na ultima encarnação do herói nos cinemas. Em O Contador, esse modo automático de atuar, sem muita necessidade de expressões dramáticas ou exigências nessa linha, se adéqua perfeitamente para seu personagem, aqui, dirigido por Gavin O´Connor, do ótimo Guerreiro.

Affleck vive Christian Wolff, um contador profissional que atua sob a fachada de um simples profissional do ramo, mas que, na verdade, gere os livros de caixa de diversos criminosos de alto escalão em vários países. Com uma infância traumática por conta de seu autismo e funções cognitivas fora do normal, é treinado por seu pai militar para usar sua inteligência em paralelo ao domínio físico. E é justamente nessa junção de opostos que o roteiro de Bill Dubuque acerta.

Escrever sobre o vidro: exigência para gênios
Há um equilíbrio visto na presença de Wolff em cena, o que é auxiliado bastante pelo modo frio de atuação de Affleck. O calculado modo de se movimentar, a rotina inabalável, o comportamento antissocial (algo visto em um engraçado momento quando ele rejeita encontrar-se com a filha de uma funcionária), as refeições exatas, o número preciso de talheres em casa, enfim, tudo mantém sua postura de acordo com seu transtorno obsessivo compulsivo e com os passos planejados que costuma dar para que seu disfarce não seja descoberto.

Ao ser contratado para descobrir as razões de um vazamento financeiro nos livros de uma grande indústria robótica, esse equilíbrio começa a desabar, algo perceptível pelo modo como se aproxima da também contadora Dana Cummings (Anna Kendrick) e tem sua barreira antissocial derrubada pela naturalidade da bela garota. Nesse ponto, com o TOC por não poder encerrar sua tarefa a torturá-lo, é curioso observar como O´Connor insere pequenas pistas daquele desequilíbrio, quando, por exemplo, a entrada de Christian com seu carro na garagem deixa de ser precisa com o tempo do portão eletrônico, ou, de forma mais escancarada, quando um ritual diário envolvendo música pesada, luzes piscantes e um bastão ganha contornos mais violentos.

A presença autoritária de J.K. Simmons
O filme acerta por se manter dentro de uma atmosfera de mistério na caça que o FBI, representado pela sempre eficiente presença autoritária de J.K. Simmons, realiza contra Wolff. Inserindo a figura de Jon Bernthal (cada vez mais a vontade em papéis violentos) como contraponto para o pragmatismo de Christian, há nesse embate uma química que funciona bem, principalmente nos momentos em que as armas de grosso calibre, auxiliadas por um desenho de som impactante (algo que remete ao clássico Fogo contra Fogo), trazem o choque da violência que o protagonista carrega consigo.

Encontrando o equilíbrio psicológico ao observar um original de Jackson Pollock fixado acima de sua cama, a pintura de linhas expressionistas representa bem o estado emocional e atormentado do contador. E, pelo menos aqui, há a justificativa da falta de espaço para colocá-lo escrevendo sobre o vidro, um já batido símbolo que o cinema usa para denotar genialidade.

Uma pena que a necessidade redentora e familiar do roteiro tenha falado mais alto, precisando inserir um laço não muito eficiente na história de vida do protagonista como forma a tornar mais maleável seu final escapista.

Ainda assim, um filme eficiente em seu tom hermético e de violência precisa. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O Mestre dos Gênios

(Genius, EUA, 2016) Direção: Michael Grandage. Com Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman, Laura Linney, Dominic West.


Por João Paulo Barreto

Dentro de uma reconstrução histórica impecável, Mestre dos Gênios, filme de estreia do diretor Michael Grandage surpreende pelo modo intimista como o cineasta conseguiu, já em seu primeiro trabalho atrás das câmeras, uma ótima unicidade entre os seus protagonistas.

Na história, baseada em fatos reais, o jovem e promissor romancista Thomas Wolfe busca, durante a depressão americana na Nova York de 1929, a publicação de seu primeiro livro, então conhecido como O Lost, mas que, após a influência do editor Max Perkins, se tornaria o sucesso Look Homeward, Angel.

Vivido com paixão por um inspirado Jude Law, Wolfe exala uma determinação que se mescla bastante com uma sutil insegurança por conta da dúvida de seu trabalho ser realmente bom. Após recusas em diversas editoras, tem a proposta de publicação feita pela editora Charles Scibner´s Sons, na qual o lendário Max Perkins trabalha como principal editor. Aqui, temos um Colin Firth, sempre contido e oposto ao espalhafatoso (no bom sentido) Law, a entregar uma atuação que inicialmente reflete sua postura pragmática em relação aos cortes que sugere em romances em estado bruto, mas que, gradativamente, revela suas fraquezas e inseguranças comuns a qualquer ser humano.

Wolfe e Perkins: amizade que supera o estritamente profissional
O filme acerta ao apresentar Perkins em seu ambiente natural, seu escritório na editora, no qual vemos as obras de Hemingway, F. Scott Fitzgerald, dentre outras que ele editou. Ao receber os originais de Wolfe, um calhamaço gigante de páginas, faz uma pergunta: “diga-me que isso é por conta do espaçamento entre as linhas”. No entanto, o desanimo se transforma em intensa curiosidade, quando começa a ler já no trem para casa os originais, só parando de fato ao chegar à última linha.

De modo eficiente e econômico, Grandage opta por descrever a condição familiar de Perkins em uma única sequência, quando o vemos chegar em casa e ser recebido por suas quatro filhas e esposa. Não encontrando um cômodo sequer que esteja desocupado para focar na leitura dos originais, ele precisa se refugiar dentro de um closet a fim de conseguir se concentrar. Nisso, percebe-se um interesse de todas por arte, literatura e teatro, sem a necessidade prolixa de apresentar cada personagem individualmente e, o mais importante, sem tirar o espectador do foco para com seu protagonista e a forma como a dedicação irrestrita ao trabalho nem mesmo o lembra de tirar o chapéu ao chegar.  

Wolfe e Aline Bernstein: relação conturbada
O roteiro de John Logan, experiente nome por trás de diversos sucessos, constrói a relação entre Max e Thomas de forma a exibir um sentimento paternal do primeiro, algo intrínseco, uma vez que vemos o editor como pai de quatro filhas e seu desejo por um filho ser expressado pela esposa vivida por Laura Linney. Não à toa, vemos Max arrumar um sofá cama para Thomas ao recebê-lo em sua casa ou tranquilizá-lo acerca de qualquer má impressão que tenha passado durante o jantar. Max quer que Thomas se sinta como parte daquela família, ao menos na relação paternal que nutre pelo jovem gênio.

No desenvolvimento daquela amizade, o sucesso recompensa o esforço de escrita de Thomas, que, após o êxito de 1929 com Look Homeward, Angel passa os próximos anos contendo sua verborragia na escrita ao conseguir condensar, com a ajuda de Max, Of Time and The River, seu segundo best seller, lançado em 1935, e From Death to Morning, do mesmo ano.

Pearce no papel de F. Scott Fitzgerald ilustra os problemas com a esposa Zelda
Em uma inundação criativa, Thomas chega a escrever cinco mil palavras por dia, algo contrastado pelo bloqueio criativo de Fitzgerald, também agenciado por Max, mas que, desde o icônico O Grande Gatsby, não consegue escrever mais do que quinhentas palavras em um bom dia de trabalho. Vivido por Guy Pearce, o autor de Este lado do Paraíso é trazido à trama de modo a contrastar a facilidade com que Wolfe parece canalizar sua criatividade para o lápis e o papel, algo muito bem ilustrado pela direção de arte, que opta por exibir o minúsculo apartamento de Wolfe tomado por folhas e mais folhas de papel contendo seus escritos.

Em outro ponto, vemos Ernest Hemingway, vivido com um carisma caricato por Dominic West, em uma cena na qual todas as marcas ligadas a pessoa do escritor são apresentadas em tela, algo que não deixa de gerar certa graça, divertindo o espectador. Falhando apenas no desenvolvimento da personagem de Nicole Kidman, que vive a amante de Wolfe, Aline Bernstein, cuja dependência afetiva para com o escritor parece não encontrar muita lógica, uma vez que seu ciúme da relação dele com o editor contrasta diretamente com os planos que o casal fez para que Thomas alcançasse o sucesso literário (algo que, claro, não carece de muita lógica em um relacionamento amoroso como aquele), o roteirista John Logan consegue, no entanto, fechar bem o caráter histórico de seu roteiro.


Dominic West em breve participação como Ernest Hemingway
Em um final arrebatador e, mais uma vez, econômico em seu modo definitivo e sem apelações dramáticas excessivas, Grandage encerra a biografia de forma eficiente, não deixando de inserir um símbolo de desconstrução física do personagem de Max que, finalmente, cedeu ao seu emocional, deixando de lado qualquer vestígio do pragmatismo que guiou sua carreira, algo que mantinha seu trabalho sempre presente em sua vida.  

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Revista Muito - Eryk Rocha - Cinema Novo

Na edição de 25 de setembro da Revista Muito, encartada semanalmente no Jornal A Tarde, tive a honra de ver publicada a entrevista que fiz com o cineasta Eryk Rocha.

Na conversa, o diretor do premiado documentário Cinema Novo, filme vencedor na categoria em Cannes esse ano, e longa de abertura do Festival de Brasília 2016, falou sobre a experiência de trazer à tona obra tão impactante.

Clique no link para ler a entrevista e a crítica do filme e, abaixo, você confere a versão impressa da revista.

http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1804341-eryk-rocha-quero-pensar-o-cinema-como-traducao-poetica







sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Meu Rei

(Mon Roi, França, 2015) Direção: Maïwenn. Com Vincent Cassel, Emmanuelle Bercot, Louis Garrel.


Por João Paulo Barreto

Marie-Antoniette, ou simplesmente Tony, se entrega à descida de uma montanha sobre os velozes esquis para neve. Parece um gesto suicida de sua parte. Mas, até o momento final, quando se machuca seriamente, sente o vento gelado no rosto, sente seus cabelos esvoaçarem de modo refrescante e, o mais importante, sente uma emoção que, apesar de saber se tratar puramente da adrenalina, ela não se importa com sua origem artificial e previsível: quer vivê-la com a maior intensidade possível.

A descrição acima se adéqua, também, a um momento anterior da vida de Tony. Ao conhecer Giorgio em uma boate, relembra-o do fato de que já o havia encontrado anteriormente. Quase como em um prólogo de sua vida que está para começar no final daquela madrugada, tomando café da manhã com aquele homem, o tempo em que foi garçonete e que o serviu vem à tona como uma lembrança antiga. É a partir deste reencontro que os dois se envolvem e a descida intensa na vida de Tony começa a se assemelhar bastante com a mesma que abre o filme, quando seu inicio promissor, excitante e emocionante ainda não pareceria terminar do modo traumático e amargo como acabou.

Os sorrisos iniciais que não tardarão a se perder.
“Não se deve ter mais nada a perder para se amar de verdade. Deve-se superar as maiores alturas para desafiar esse abismo”, afirma Tony durante uma de suas audiências como advogada. E sua vida no momento em que se envolve com o bom vivant Giorgio se assemelha muito àqueles fatos. São dias exuberantes, de alegria contagiante, de sexo intenso, de emoções que não lhe cabem. Os sorrisos são constantes e os planos para o futuro não poderiam ser melhores. A gravidez não tarda a chegar e os planos felizes parecem se multiplicar dia após dia.

Neste ponto, ainda durante a gestação, aquele relacionamento sofre seu primeiro revés, com a necessidade de Giorgio em cuidar de uma ex-namorada suicida começando a influenciar negativamente a sua relação com Tony. As crises se iniciam, as brigas também, e a violência e  gritos entre os dois só é apaziguado com a chegada de Simbad, o bebê que nasce com um olhar sério e beleza impar. Os dias parecem novamente esperançosos, mas, claro, sabemos se tratar apenas de uma trégua. Na distância física de Giorgio, que viaja a trabalho, ou em sua necessidade de manter-se sempre em festas, como se ainda tivesse vinte e poucos anos, outros reveses daquela relação.

A chegada de Simbad e a esperança fugaz de uma relação
Meu Rei, em certos aspectos, lembra Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e seu modo de exibir os vestígios e desgastes de uma relação, quando o desrespeito mutuo suplanta sorrisos e carícias. No entanto, aqui, não há nenhuma outra opção além de encarar aquelas dores. Na pele de Giorgio, Vicent Cassel traz uma jovialidade comum aos seus personagens. Um carisma que se perde ao passar do tempo. Já em Emmanuelle Bercot, vemos na sua Tony um olhar de curiosidade e insegurança, algo que, gradativamente, se transforma em decepção e tristeza. É um filme que demonstra de modo áspero como um relacionamento pode se tornar tão pernicioso, ao ponto de até mesmo a coisa mais bela oriunda dele, uma criança, não ser mais capaz de torná-lo válido de qualquer esforço em mantê-lo.

Enquanto vemos Tony se recuperar de sua grave lesão no joelho em uma clínica especializada e suas memórias nos levar às lembranças daquela irrecuperável relação, notamos como aquelas duas fases de sua vida se complementam, sendo que apenas uma é passível de se obter algum êxito. Entre ela e Giorgio pouco se salva. E a aspereza que fica para trás reverbera naquele relacionamento que sempre estará ligada por conta da vida que os dois criaram e compartilham.

O silêncio passivo agressivo de Giorgio em seu momento final junto a Tony deixa claro, no entanto, que aquelas lesões nunca irão se curar.


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Sete Homens e um Destino

(The Magnificent Seven, EUA, 2016) Direção: Antoine Fuqua. Com Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Vicent D’Onofrio, Byung-hun Lee, Martin Sensmeier, Haley Bennett.


Por João Paulo Barreto

Alguns filmes são como pilares. Instituições. Não se deve ousar sequer pensar na possibilidade de refilmagens, adaptações para séries de TV ou reimaginações. É o caso de obras como O Poderoso Chefão, Taxi Driver ou Rastros de Ódio. Claro, hoje há uma tendência, modinha mesmo, de se adaptar para TV ou refilmar sucessos. Típico caso de ausência de novas ideias. caso. Algumas podem dar certo, outras passam longe (vide a bem sucedida série Fargo ou o horror chamado Ben Hur). Então, foi com certa desconfiança, mas uma pitada de boa fé, que vi há alguns meses o primeiro trailer do novo Sete Homens e um Destino.

E acabou se revelando uma grata surpresa em termos de qualidade a adaptação do clássico de John Sturges, que contava com Yul Brynner e Steve McQueen encabeçando um elenco, junto a James Coburn, Charles Bronson e Robert Vaughn. Aqui, Denzel Washington e Chris Pratt repetem a química conseguida entre os protagonistas do filme de 1960 que, desta vez, tem na presença de Antoine Fuqua uma direção firme para as cenas de ação nas quais não comete o erro de modernizá-las ou de trazer uma montagem com cortes acelerados, algo bem comum nas propostas de atualização de clássicos.

Washington e Pratt: à altura de Brynner e McQueen
Em um plot bem semelhante ao que vimos na versão original (que já se tratava de uma reimaginação para a obra de Kurosawa, Os Sete Samurais), o latifundiário e assassino Bartholomew Bogue (Sarsgaard) decide tomar à força uma cidade por conta de suas terras. No processo, mata diversos membros da comunidade, o que leva um grupo deles a procurar vingança e justiça contratando o caçador de recompensas Chisolm (Washington) que recruta mais seis matadores para fazer o serviço.

Com uma estrutura inicial de apresentação dos personagens que remete em modo de tributo ao clássico de 1960, como quando vemos um duelo semelhante ao que vimos com James Coburn a usar uma faca contra um revolver (aqui, um grampo de cabelo resolve), a escolha dos novos integrantes do bando demonstra-se bem eficiente. A começar por um inseguro Ethan Hawke a viver Goodnight Robicheaux, pistoleiro cuja lenda é alimentada por uma precisão no tiro, mas que esconde os traumas da guerra a torná-lo incapaz de matar novamente. Outro que surpreende é Vincent D’Onofrio, ator cujo controle vocal já é notório (veja-o em Demolidor e compare com seu personagem aqui) e que usa sua corpulência de modo impressionante na pele do brutamontes Jack Horne, ou o “urso em roupas humanas” como define Josh Faraday, vivido com o carisma habitual de Chris Pratt.

Emma Cullen em busca de justiça e/ou vingança
Além disso, na presença da viúva Emma Cullen (Bennet), uma personagem feminina forte e determinada, sem a comum fragilidade vista em alguns filmes, o longa de Fuqua acerta ao torná-la uma das figuras chaves da trama, cujo desfecho forte e que exibe um passado em comum entre dois outros antagonistas (algo que remete claramente ao final de Era uma vez no Oeste) colabora para enriquecer ainda mais a história.

Pecando apenas por não tornar muito factível o interesse do índio Red Harvest (Sensmeier) na empreitada, algo que é observado pela forma incomum como ele se aproxima do bando, ou no modo como a desistência de um dos integrantes é previsivelmente contornada pelo seu retorno em um momento crucial do embate contra os homens de Bogue,  o roteiro de Nic Pizzolato e Richard Wenk cumpre bem sua intenção de homenagear o longa de 56 anos atrás, imprimindo uma roupagem sem firulas, que faz jus a estrutura dos westerns clássicos.


Ao pontuar apenas o seu final com o famoso tema original composto por Elmer Bernstein, o filme de Antoine Fuqua acerta ao optar por uma identidade própria, algo alcançado com eficiência pela trilha composta pelo saudoso James Horner, aqui em seu último trabalho.

Os Sete Magníficos em sua nova versão

domingo, 18 de setembro de 2016

Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva IX


Orquestra Invisível Let´s Dance (São Paulo, 2016, 20min) Direção: Alice Riff.

Com uma estrutura já convencional de apresentação de personagem, o documentário Orquestra Invisível Let´s Dance tem justamente nessa escolha de desenvolvimento sua principal falha. Ao optar pela captação de depoimentos de maneira um tanto repetitiva, sem inovar nos discursos um após o outro, o filme acaba precisando da redundância de uma narração em voz over para levar pela mão o espectador em sua história.

História essa que, ao menos, cativa o público por conta do imenso carisma de seu protagonista. No caso, trata-se de Osvaldo Pereira, o primeiro DJ do Brasil e precursor das vitrolas e das trocas de discos de vinil nos bailes dos anos 1950 e 1960. Substituindo as grandes orquestras que, até então, eram contratadas para animar os bailes e, por consequência, carecendo de um grande investimento por parte dos organizadores, 

Seu Osvaldo, como era conhecido, revolucionou o negócio dos bailes. Sendo apenas ele à frente do som e um grupo pequeno de pessoas na organização das festas, o ramo se tornou rentável, uma vez que o retorno financeiro era bem maior sem a necessidade de se bancar grandes grupos de músicos profissionais. Daí a ideia de chamar o que Seu Osvaldo oferecia de “Orquestra Invisível”, uma vez que, ele sozinho, junto a uma vasta coleção de vinis, era responsável pela animação de diversas festas.

Seu Osvaldo, o primeiro DJ do Brasil
É neste ponto que o documentário dirigido por Alice Riff acerta, quando a influência musical é colocada em evidência ao se abordar o tipo de som que Seu Osvaldo tocava à época. Exibindo uma invejável coleção de vinis, que vão desde um Ray Conniff ainda sem a característica principal dos cabelos grisalhos à marca registrada dos bailes do período com Glenn Miller inserindo o clima, o curta utiliza bem a fala de Seu Osvaldo para relembrar o período da forma como deve ser feito: com as influências musicais que o definiram como um precursor dos bailes blacks e do funk que, para usar uma gíria do período, se tornariam uma “coqueluche” cultural.

Tributo a uma figura que merece o registro para a posteridade não somente pela sua importância histórica, mas pelo carisma tão contagiante quanto seu som.

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Antonieta (Santa Catarina, 2015, 15min) Direção: Flávia Person.

Antonieta é um filme de ritmo eficiente que, mesmo centrado em uma constante narração em off, consegue, com o importante suporte imagens de arquivo, captar muito bem a atenção do espectador.  Através de breves e concisos quinze minutos, o curta narra a intensa vida de Antonieta de Barros, a primeira mulher negra a se tornar parlamentar no Brasil.

Filha de uma ex-escrava, Antonieta tem em sua trajetória no estado de Santa Catarina do começo do século passado, um exemplo de resistência e do necessário pensamento à frente do seu próprio tempo. Em sua história, a paixão pelo magistério a leva a adotar a vocação de modo exclusivo, não sobrando espaço em sua vida para casamento ou filhos. Um sacerdócio, como insere a narração.

Antonieta de Barros
Trata-se de um curta que prima por uma precisa pesquisa do seu tema de estudo. Que delineia, sem a necessidade floreios, a vida de sua personagem de modo conciso, trazendo para o espectador o peso exato da importância de Antonieta de Barros para o tempo em que viveu, no qual despertou o respeito disfarçado oriundo das influentes famílias brancas e racistas (suas classes eram disputadas por todos os representantes da elite catarinense que queriam os filhos como alunos de Antonieta) e se firmou na luta pelos direitos das professoras quando fundou a Liga dos Magistérios. No absurdo pensamento da época, as professoras não podiam se casar ou ter filhos, pelo fato de que essa condição poderia levar as crianças a indagá-las sobre sua sexualidade e vida afetiva.

Ao utilizar imagens oriundas das primeiras décadas do século XX para ilustrar a narração explicativa da vida de sua personagem, a montagem do curta demonstra sagacidade, como, por exemplo, no momento em que traz a opinião de Antonieta acerca da necessidade obrigatória do saber como sendo uma arma. “Só vive no sentido humano da palavra o que pensa. Os outros se movem, tão somente”, insere a voz over. E a exatidão do momento coincide com imagens de bovinos sendo levados à frente pela violência de boiadeiros. Uma clara alusão à vida de gado que apenas o conhecimento poderia evitar.

Antonieta em meio aos colegas de parlamento no começo do século XX
Personagem de tema riquíssimo, traz para a obra a importância de se enxergar a nossa identidade de Brasil. Alguém que lutou desde o começo para se destacar e fugir das amarras que a manteriam confinada ao detalhe da cor de sua pele ou ao seu gênero. Luta pela emancipação feminina no intuito de escapar das amarras do pensamento retrógrado. Nesse ínterim, se torna cronista de jornal, assinando a coluna “Farrapos de Ideias” sob o pseudônimo de Maria da Ilha e batendo de frente com declarações pejorativas e racistas acerca de seus escritos. “Intriga barata de senzala”, carimba um historiador da época.

Na réplica, já se encontrando exonerada da escola onde lecionava pelas forças sombrias e racistas do período do Estado Novo, Antonieta demonstra sua elegância e orgulho pela sua luta ao afirmar que “não houve intriga barata, nem cara. As considerações foram ditadas pelo coração de uma negra brasileira que se orgulha de sê-lo e que nunca se pintou de outra cor.” Na força de seu discurso, a sensatez que apenas os detentores da razão possuem.

Uma pena que a diabetes a tenha levado com apenas 51 anos. Imaginar o que Antonieta teria feito em mais trinta anos é algo por demais desafiador e reconfortante.

Ao conhecer sua vida, fica a certeza de que, contra os hipócritas e racistas, a pena é mais forte que a espada.

Mas a arma afiada não pode ser descartada, friso.

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Abigail (Rio de Janeiro, 2016, 17min) Direção: Valentina Homem e Isabel Penoni


Existe uma ambientação quase de cinema de gênero no inicio do curta dirigido por Valentina Homem e Isabel Penoni. Trata-se de um filme extremamente sensorial.

Desde seu convidativo plano sequência de abertura, quando somos levados a conhecer os cômodos da casa da personagem-título, com as camadas dos seus objetos pessoais expostos a desenhar sua personalidade para o espectador que não a conhece, até o momento chave daquela introdução, quando o filme interrompe o silêncio gritante (e, até então, imperceptível) para inserir um intenso som metálico, um assustado latido e a aparição de uma representação do candomblé a tomar toda a nossa atenção e nos tirar daquele quase transe de imersão onde nos encontrávamos. A energia da cena é palpável.

Abigail traz uma forma de apresentação de sua personagem que foge de clichês descritivos convencionais. Mesmo em sua narração em off, não se percebe uma necessidade explicita de descrever a vida de Abigail Lopes, indianista e esposa de Francisco Meireles, um sertanista que, ao lado dela, lutou pelos direitos dos nativos. A voz, entretanto, nos convida a adentrar naquele contexto. E, somado ao modo aconchegante como passeamos por aqueles recintos, acabamos por nos sentir à vontade ali e ainda mais curiosos por conhecer a trajetória daquela senhora que, já na fase final de sua vida, em uma fala marcante captada pelas diretoras, se considera teimosa como justificativa ao fato de possuir suas coisas.

Momento de entrega e de união de suas duas missões
De fato, é algo não tão simplório quanto teimosia o que explica tudo que o que ela conquistou, não somente em relação às posses materiais, obviamente, mas em termos sociais na aproximação com os indos e na defesa pela sua causa. É resignação. Neste processo, foi responsável pela pacificação dos Xavantes, algo que o filme levanta como um fato do qual ela se arrepende por considerar que eles tiveram acesso ao que não presta ao lado dos brancos.

Ao abraçar o candomblé e uni-lo à cultura indígena que já havia absorvido, Abigail encontra um equilíbrio denotado no momento em que comenta acerca do Obaluaê, um dos símbolos dessa cultura, que pertencia ao seu filho, Apoena Meireles, assassinado em 2004. “A gente não pode ter medo de nada”, diz a senhora enquanto parece confortar uma das diretoras presentes. Um pedido de benção demonstra a admiração pela mulher em estudo.

Na mescla de cumplicidade com sua protagonista, o filme cumpre um papel ainda mais importante que o de registrar a vida e luta de Abigail Lopes. O de cultivar o respeito por aquela cuja trajetória fez a diferença para todo um povo e que, no final de seus dias, encontra o conforto no exílio particular de seu próprio mundo, representado pela presença física que aquele lar, o segundo personagem do filme, denota.

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Retrato de Carmem D. (Rio de Janeiro, 2015, 21min) Direção: Isabel Joffilly.



Em outra obra da nona Mostra Competitiva em que se observa uma relação intima do espaço físico com o estudo de seus personagens, Retrato de Carmem D. possui uma carga dramática mais pesada e, por conta da interação entre suas duas figuras centrais, o resultado acaba sendo de uma intensidade palpável.
Carmem Dametto, conhecida psiquiatra residente do Rio de Janeiro, atende seus pacientes em casa, um imóvel situado em local de perceptível silencio e de calma bucólica. No entanto, o lugar esconde certo desequilíbrio emocional. E o filme de Isabel Joffily ressalta justamente esse fato ao confrontar as diferenças entre a profissional e sua filha, Marcela, jovem cujos traumas de ter vivido sob a criação pragmática da mãe afloram de forma marcante em seus depoimentos.

Entre lágrimas, a vemos falar acerca do modo como Carmem não demonstrava uma cumplicidade de mãe quando as dúvidas comuns à infância surgiam, afirmando-se não como uma amiga ou como uma psiquiatra para a filha, mas apenas como mãe, posição que, para ela, não apresentava os atributos ou obrigações que a filha afirmava.

As dores de uma trajetória vindo à tona e sendo confrontadas
É um filme que se equilibra muito bem sob as a discussões das duas mulheres. Discussões essas que podem surgir de pontos tanto graves, quanto ínfimos, como vemos todo um enérgico argumento que revisita declarações duras do passado, como quando a jovem afirma ter sido chamada de filha da puta pela própria mãe quando ainda era criança. E isso acontece a partir de uma simples conversa acerca da opção de dar ou não leite para os gatos da casa.

Em tons de voz sempre altos, ambas parecem estar a todo momento sob o fio da navalha para iniciar uma briga. Porém, há uma cumplicidade notável entre as duas. Chamados de “mãe” ou de “Marcela” demonstram isso. As rememorações do passado, sobre festas infantis feitas com pacientes presentes que hoje causam risos ou o suporte demonstrado pela jovem ao falar do caso onde a mãe foi acusada de assassinato quando um paciente morreu em sua clinica no final dos anos 1980 (caso já encerrado e Carmem sendo inocentada), também exibem tais laços entre as duas.

A piscina a representar de modo perfeito o cuidado que aquela relação pede
E a casa, em toda sua grandeza, com os objetos da rotina a compor o ambiente doméstico, sem nenhum tipo de “bagunça cênica” inserida pelo filme, serve como um local perfeito para demonstrar o equilíbrio entre ambas. Em um momento simbólico, vemos Marcela dentro da agora abandonada e vazia piscina que, repleta de lodo, carece de uma reforma para voltar a aparentar o que é. Lá de dentro, a vemos acariciar os cachorros na borda e comentar sobre se lembrar da mãe bronzeada e defini-la como “briguentinha”, por conta de sua impaciência em responder as perguntas de criança. É um take que mostra a beleza de um lugar que carece apenas de atenção.

Rima muito bem com a necessidade da relação entre mãe e filha.


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva VIII


Entretempos (Ceará, 2015, 7min) Direção: Yuri Firmeza e Fred Benevides.

Tema essencialmente presente entre as obras selecionadas para as mostras competitivas do Cachoeria Doc, Entretempos aborda as transformações de cidades não somente pelo seu viés geográfico e urbanista, mas pelo cunho social e, de forma traumática, excludente no quesito étnico.

Através de colagens de imagens que desenham um panorama de construções e demolições em bairros populares do Rio antigo, mais propriamente a região conhecida como Pedra do Sal ou “pequena África”, nos arredores da Praça Mauá, o filme de Yuri Firmeza e Fred Benevides apresenta uma marcante crítica ao modo como a exclusão racial se encontra tão escancarada na pretensa ideia de “modernização” dos locais comuns a todos.

Nas animações publicitárias de empreendimentos imobiliários, juntamente com a inserção das figuras brancas como um modo a demarcação territorial, uma chocante observação do modo selvagem como a gentrificação de áreas completas de uma cidade pode acontecer tão às claras.

Em seu título, Entretempos propõe esse intervalo, algo que, em um mundo ideal, significaria uma evolução. No entanto, a repetição das mesmas práticas do período colonial se observa apenas como uma roupagem disfarçada, mas tão óbvio quanto o que é evidenciado pelas imagens dos documentos comprovadores de negociações por escravos.

Embranquecimento e gentrificação de uma cidade

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SemTítulo #2 – La Mer Larme (São Paulo, 2015, 31min) Direção: Carlos Adriano.

Em Sem Título #1: Dance  of Leitfossil, o cineasta Carlos Adriano apresentou, em pouco mais de cinco minutos, uma belíssima homenagem a Bernardo Vorobow, seu companheiro de longa data, parceiro na direção de diversos trabalhos e experiente programador que esteve, por quase 40 anos (de 1970 até sua morte, em 2009), à frente de diversos centros de programação cinematográfica, como o Museu da Imagem e Som.

Conhecido como o “Sr. Cinemateca do Brasil”, Vorobow tem sua imagem inserida à bela justaposição da dança de Fred Astaire e Ginger Rogers com a música Desfado, interpretada pela cantora portuguesa Ana Moura. Trata-se uma obra cujo ritmo enérgico, somado ao casamento perfeito entre imagem e som, cativa o espectador de forma acachapante, tornando impossível que um sorriso não se faça presente do começo ao fim de sua breve projeção.

A cumplicidade observada em um frame 
Na sua continuação SemTítulo #2 – La Mer Larme, Adriano dá uma vazão ainda maior à homenagem que continua a merecer Vorobow por sua trajetória no cinema nacional. Aqui, a escolha musical fica por conta da canção francesa La Mer, de Charles Trenet, interpretada por ele e por uma grande variedade de artistas. Nas imagens, observamos dois homens a conversar em um convés, no qual violência da maré e dos ventos os leva a compartilhar uma cumplicidade em comum. Cumplicidade essa que faz referências à forma escolhida pelo diretor a homenagear Vorobow, cujas imagens são, assim como em seu antecessor, novamente inseridas juntamente com registros de um cateterismo, em uma clara alusão às complicações cardíacas que o levaram.

Nas imagens, uma estendida justaposição das cenas já citadas e de colagens de obras seminais dos primórdios do cinema. Uma diferente experimentação, com união de imagens e repetição constante de seu tema musical, algo que pode até causar estranhamento no público desavisado por conta de sua duração e experimentalismos, mas que, da mesma forma que em sua primeira parte, leva o espectador a perceber e se comover diante de um teor saudoso e um modo particular e idiossincrático de se observar o luto.

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Filme de Aborto (São Paulo, 2015, 63min) Direção: Lincoln Péricles.

Há em Filme de Aborto, do diretor Lincoln Péricles, uma análise pertinente do modo como subempregos (no caso, telemarketing) são capazes de destruir auto-estimas e causar depressões. Neste aspecto, o filme funciona por tocar em um assunto delicado, algo já notório e que afeta muitas pessoas. Nesta proposta, ao trazer o tema para uma dramatização, o longa acerta por evidenciar algo que merece atenção. Mas, como seu título já diz, outro ponto é verificado.

Trata-se de uma obra inventiva, que aborda a questão do direito feminino ao aborto de maneira a alfinetar uma sociedade paternalista e machista na qual as mulheres não possuem os mesmos direitos e conivências. Somando-se ao drama imposto pela necessidade empregatícia, o filme acaba mirando e desenvolvendo não exclusivamente um único aspecto que aflige seus personagens, o que gera um problema no foco que o trabalho possui. A escolha não chega a prejudicar o resultado, mas o modo como isso é executado, sim. Principalmente quando o filme opta por inserções de imagens (vide a sequência com o vagabundo de Chaplin) que servem apenas para causar uma quebra em sua narrativa, mas que não alcançam qualquer intento.


Desconsiderando isso, é interessante focar nos pontos de acerto de Péricles. O mais óbvio reside na inversão irônica de um casal que deseja ter filhos, mas, no contexto, quem engravida é o homem. O aborto, nesse caso, é legal, uma vez que não é realizado pela mulher. Neste aspecto, o filme traz boas reflexões e causa até bons momentos em sua acidez, como quando vemos dois “grávidos” conversarem enquanto esperam o atendimento na clínica onde será feito o procedimento, algo que remete às esquetes surreais propostas pelo grupo britânico de humor, Monty Python. 

Inversão dos papéis e a reflexão dura através da ironia do humor

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva VII



Nunca é Noite no Mapa (Pernambuco, 2016, 6min) Direção: Ernesto de Carvalho.

Vencedor do prêmio de Melhor Curta Metragem da edição 2016 do Cachoeira Doc, Nunca é Noite no Mapa apresenta uma ideia simples, mas de uma sagacidade impar. Trata-se do tipo de filme cujo tema central e modo de execução rimam em um pertinente uníssono e cuja denúncia contida em seu conteúdo reverbera de forma ainda mais evidente por conta dessa mesma forma de execução.

A partir de visitas ao google mapas espaçadas por intervalos de tempo, o diretor Ernesto de Carvalho avalia as imposições arbitrárias realizadas em Recife durante o período que antecedeu a Copa do Mundo, registrando as mudanças que ocorreram na região, com a derrubada de casas para a passagem de novas avenidas.

O diretor se insere em seu experimento se tornando objeto de observação
Ao se colocar como elemento dentro do seu filme, o narrador/diretor observa as mudanças ao seu redor como um dos elementos diretamente afetados por aquelas ações agressivas. Não que ele já não cumprisse esse papel, uma vez que vive dentro daquela realidade. Mas, ao se propor analisar os objetos dispostos dentro do mapa do mesmo modo como eles são classificados por aquele olhar digital e desumano, o narrador acaba por trazer uma nova perspectiva, tornando o mapa a sua realidade e mantendo-se ali, inserido até o fim, como sendo apenas isso: um objeto a ser apenas exposto sob a visão de uma máquina.  

Assim, as camadas daquele universo vão sendo sobrepostas uma após a outra, trazendo à tona a forma selvagem com aquelas mudanças são impostas. Em seu título, um congelar do tempo é proposto pelo filme. Nesse ínterim, pessoas são descartadas dentro de um universo virtual.

Algo que reverbera e reflete de modo brutal na realidade que serviu como modelo fotográfico para aquele registro atemporal.

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Fort Acquario (Ceará, 2016, 7min) Direção: Pedro Diógenes.

Das formas mais eficientes de se denunciar o abusivo poder dos mais abastados sobre uma população que os sustenta, a tática de se usar seu próprio discurso contra o opressor é uma das que melhor funciona.

Em Fort Acquario, o diretor Pedro Diógenes consegue essa proeza de modo bastante eficiente. Ao utilizar a oportunista fala de um arquiteto ao expressar-se sobre todos os supostos benefícios que a construção de um aquário de visitação pública trará à praia de Iracema, em Fortaleza, Diógenes contrasta toda a argumentação ensaiada do homem com fotos da utilização da praia de modo democrático e acessível a todos. Da forma como deve ser.

A observação do uso do espaço público como ele deve ser: sem apropriações
Nesse intento, as imagens de pessoas a caminhar pelo calçadão com os tapumes da obra a destoar da paisagem e as palavras do arquiteto a afirmar que aquela será uma revitalização que trará de volta ao lugar as famílias que lá merecem frequentar, servem justamente como um resposta das mais eficientes àquela forma baixa de se vender uma ideia.

Na opressão imposta pela classe dominadora que insiste em se apropriar dos espaços comuns em nome de uma suposta segurança geral, o filme ainda acerta em cheio ao usar a voz daquela que, até então, era um dos símbolos de rede Globo, talvez a maior aliciadora de intelectos e manipuladora de fatos em detrimento de interesses escusos como os que estavam por trás daquela construção em Fortaleza.


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Dia de Pagamento (Pernambuco, 2015, 28min) Direção Fabiana Moraes.

Como um filme de personagens que se encadeiam a partir da narração em off que guia o espectador por duras trajetórias de vida,  Dia de Pagamento funciona através de um registro do modo como um suposto progresso muda a vida de gente simples. Nem sempre para melhor, friso. Na estrutura de seu documentário, a cineasta Fabiana Moraes insere a encenação de situações que ajudam a compor a mise en scène do filme e colaboram com uma quebra do que correria o risco de se tornar uma estrutura documental clichê.

Não é o caso aqui. Nas apresentações de seus personagens, a diretora traz suas histórias e rotinas de modo a familiarizar o espectador com aquela realidade. A de pessoas como a dona de casa e mãe de três filhos, que trabalha por pouco mais de mil reais e têm nessa quantia a perspectiva de um mês inteiro. Que precisa pagar em dez prestações quatro cadeiras plásticas, mas que consegue observar o mundo ao redor de sua casa pequena e perceber que ao menos aquilo lhe pertence. Na pequena habitação adquirida, ela consegue se sentar à porta e observar aquilo como sendo seu.

O registro das mudanças em nome do suposto progresso
A representação do progresso em questão é a transposição do Rio São Francisco, obra que altera rotinas e difere paisagens. Nessa mutação de toda uma região, as mudanças podem ser traumáticas justamente pelo modo temporário e fugaz com que seus benefícios se apresentam. Um exemplo disso está no enquadramento que conta a história do dono do bar que faturava cinco mil reais por mês no auge do movimento de operários, mas que, agora, tem sua renda mensal restrita a quinhentos reais.

É um filme humano em sua essência. Por mais simplória que essa definição possa parecer, ela tem sua eficiência na forma como a diretora Fabiana Moraes consegue captar uma face única de seus entrevistados. Seja no gracioso momento em que ensina uma senhora a linha que ela terá que proferir (sendo necessárias diversas repetições) ou na triste abordagem de outra moradora idosa que conta a experiência de perder seu jumento para uma pedrada oriunda de uma explosão planejada (isso sem contar o fato de que a indenização que lhe ofereceram foi de dez reais). É nestes encontros que a obra se constrói e encontra seus melhores resultados.

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Aracati (Rio de Janeiro e Ceará, 2015, 62min) Direção: Aline Portugal e Julia de Simone.


É curioso o fascínio gerado pelo média metragem Aracati,dirigido pelas professoras de roteiro Aline Portugal e Julia de Simone. Trata-se de um filme extremamente sensorial, um literal estudo do vento que leva o nome título do filme e que tem como sua característica mais marcante o fato de que sopra no mesmo horário diariamente, levando movimento a várias turbinas geradoras de energia eólica no estado do Ceará e a certeza de uma rotina infalível aos moradores da região.

A partir de um inicio que segue uma estrutura formalista, exibindo o local de manufatura dos gigantescos moinhos de vento que adentram o estado, o filme gradativamente caminha para uma abordagem humana, exibindo as transformações dos lugares e o modo como as mesmas afetam os habitantes ao redor. Nisso, alagamentos de cidades para criação de represas apagam não somente as estruturas físicas dos locais, mas, também, o emocional de seus cidadãos.

O progresso e contraste de paisagens
Nessa certeza de mudança constante, as pessoas ao seu redor tendem a se tornar meros observadores de toda aquela mutação. E a partir da presença da câmera da dupla de cineastas, um novo contexto é percebido na vida daqueles cidadãos. Um deles caminha pelo lugar onde antes havia uma cidade, mas que, agora, apenas ruínas de um alagamento permanecem. Em um tom de nostalgia, o vemos comentar que aquela foi a primeira casa da rua. Ele caminha pelos “cômodos”, observa uma mala esquecida na areia que cerca o local. É de sua vida que estamos falando. É da sua estrutura de vida que lhe foi retirada em nome de algo que supostamente se chamaria progresso. O progresso físico das coisas. Aquele que suplanta o emocional e sentimental de outras.

Aracati é um filme que trata desse tom passageiro, dessa mensagem que aborda o transitório. Que usa a metáfora do vento a cruzar a região de modo a salientar justamente essa ideia de mudança que, de forma contraditória, se torna algo indelével, uma vez suas alterações são definitivas.


No som oriundo do soprar constante do Aracati é que está uma das poucas coisas imutáveis na vida dos habitantes daquela região.